Cantemos com alegria o 7 de Abril.

Hoje é 7 de Abril, dia da mulher moçambicana.
A todas as mulheres moçambicanas: feliz dia!

 

Samora Machel disse: “A emancipação da mulher não é um ato de caridade, não resulta duma posição humanitária ou de compaixão. A libertação da mulher é uma necessidade fundamental da Revolução, uma garantia da sua continuidade, uma condição do seu triunfo.”

 

O dia da mulher moçambicana não foi criado para trocas de poemas ou ofertas de flores. Esse não era o objectivo na altura e continua a não ser o objectivo hoje. Muitos perguntam “E o dia do homem, quando é?” Esta pergunta mostra ignorância em relação ao verdadeiro significado dia da mulher. O dia da mulher é uma comemoração da luta pela emancipação da mulher. O dia da mulher serve também para nos lembrarmos de que a esta luta ainda não acabou, de que ainda não atingimos igualdade social. Este é o significado da comemoração do dia da mulher moçambicana. Apesar do dia ser de festa, a necessidade de existir este dia não é motivo para celebração. Eu preferia muito mais viver numa sociedade onde um dia para comemorar a luta pela emancipação da mulher já não fosse necessário. É que isso significaria uma sociedade verdadeiramente justa. O meu desejo hoje é que este dia deixe de ser relevante durante a minha vida; eu quero morrer sabendo que a sociedade que vou deixar para os meus filhos já não precisa de dias das mulheres.

 

Direitos das mulheres são direitos humanos.

A 10 de Dezembro de 1948 a Assembleia Geral das Nações Unidas adopta a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Moçambique é signatário (assinou) desta declaração. Aliás, nós baseamo-nos, em parte, nesta declaração para exigir a independência de Portugal. Como país nós concordamos com esta declaração na íntegra. Hoje, no dia da mulher moçambicana, eu quero olhar para alguns dos artigos nesta declaração.

 

Artigo 1.

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência de devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.”

Direitos das mulheres são direitos humanos. Quando exigimos direitos iguais não estamos a exigir um privilégio, estamos a exigir igualdade.

Este artigo fala de igualdade em dignidade. Isto significa que uma mulher é tão digna quanto um homem. Quando se fala em roupa que não dignifica a mulher, estamos a falar de uma diferença em termos de dignidade. Estamos a dizer que a dignidade da mulher depende da roupa que usa. Isto é contra os direitos humanos.

 

 

Artigo 2.

  1. “Todo ser humano tem capacidade de gozar os direitos e as liberdades estabelecidas nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, côr, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.”

 

Direitos das mulheres são direitos humanos. Quando limitamos a liberdade de circulação das mulheres por causa da roupa que elas vestem estamos a violar os direitos humanos das mesmas.

 

 

Artigo 3.

“Todo o ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.”

Direitos das mulheres são direitos humanos. É obrigação do Estado garantir liberdade e segurança pessoal às mulheres tanto quanto aos homens. Quando a polícia deixa mulheres serem violentadas na rua e nos transportes públicos está a negar-lhes os seus direitos humanos. Quando o Ministério da Educação falha em garantir a segurança pessoal das meninas nas escolas está a negar-lhes os seus direitos humanos.

 

 

Artigo 7.

“Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.”

Direitos das mulheres são direitos humanos.

 

 

Artigo 9.

Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.

 

Direitos das mulheres são direitos humanos.

 

 

Artigo 12.

“Ninguém será sujeito à interferências em sua vida privada, em sua família, em seu lar ou em sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.”

Direitos das mulheres são direitos humanos. Quando membros do governo dizem que certas roupas não dignificam as meninas estão a fazer um ataque à honra e reputação dessas meninas. Estão a violar os direitos humanos dessas meninas.

 

 

Artigo 19.

“Todo o ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.”

Direitos das mulheres são direitos humanos. Quando é negado o direito de emitir opinião mesmo que seja a “favor de mini saias” estamos a negar um direito humano.

 

 

Artigo 20.

  1. “Todo ser humano tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica.”

 

Direitos das mulheres são direitos humanos.

 

 

Artigo 26. (direito à instrução)

  1. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.”

 

Direitos das mulheres são direitos humanos.

 

 

Artigo 28.

“Todo ser humano tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados.”

 

Direitos das mulheres são direitos humanos. Cabe ao Estado criar a ordem social que garanta às mulheres igualdade de direitos e liberdades.

 

 

Artigo 29.

  1. “No exercício de seus direitos e liberdades, todo ser humano estará sujeito apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
  2. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos propósitos e princípios das Nações Unidas.”

 

Direitos das mulheres são direitos humanos.

 

Artigo 30.

Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer actividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.”

 

Direitos das mulheres são direitos humanos.

 

 

A luta continua!

O racismo

A primeira vez que eu fiz activismo (sem saber) pró consciência e orgulho negro foi em Portugal quando eu tinha 3 anos perante uma audiência de familiares completamente atónita (ou pelo menos a minha mãe conta assim). Na altura eu resolvi, sabe-se lá porquê, cantar-lhes que os meus heróis eram o meu papá Samora, a minha mamã Josina, o meu tio Kaunda e o meu avô Nyerere. A resposta foi qualquer coisa do género “Ela sabe que essas pessoas não são família dela, não é?”

Já se passaram quase 30 anos e ainda há quem me faça, na prática, a mesma pergunta. O triste é que muitas das pessoas que me fazem esta pergunta não são as pessoas que saíram das ex-colónias portuguesas desamparadas e derrotadas. Eu posso entender que para essas pessoas é muito difícil entender porquê eu abraço a consciência negra. Muitas, se não mesmo a maior parte, das pessoas que me fazem esta pergunta são da minha geração e cresceram em Moçambique. Entristece-me que pessoas que viveram a vida toda em Moçambique, neste Moçambique pós independência, não consigam entender que ser pró-negro não significa ser anti-branco; mas significa destruir ideias anti-negro que foram propagadas pelo sistema colonial. Mas entristece-me ainda mais que a vivência que tiveram em Moçambique não foi suficiente para bloquear os mais variados preconceitos contra os negros inventados durante o período colonial. Uma coisa é certa, o facto de que eu tenho de explicar certas coisas a brancos moçambicanos da minha geração é mais um motivo para continuar o activismo pró consciência e orgulho negro em Moçambique. O principal motivo continua e sempre será a emancipação e elevação dos negros moçambicanos.

As conversas sobre o racismo, do ponto de vista dos negros, são dominadas (no meu meio) por pessoas da África do Sul e dos EUA. Estes grupos definem o racismo como mais do que um mero preconceito, isto é, nesta definição o racismo não está ao mesmo nível que o preconceito contra pessoas gordas, por exemplo. A palavra racismo descreve opressão sistémica e não opressão pessoal. Na prática isto significa que quando alguém me chama a mim de branca como insulto, não é racismo. Mas se eu chamar a um negro de preto, mesmo que não seja como insulto, é racismo. A justificação para esta abordagem é que o racismo é um problema de classes, de grupos, não de pessoas individuais e está ligado a dinâmicas de poder. Eu entendo porquê os sul africanos e os americanos preferem esta definição.

Para a realidade moçambicana eu acho mais apropriado definir que há dois tipos de racismo, racismo individual e racismo sistémico/institucional. Há situações onde estes dois tipos de racismo encontram-se e misturam-se o que pode gerar alguma confusão, mas em geral é possível separar as águas.

É impossível escapar ao racismo individual, a não ser que uma pessoa seja duma dessas tribos que estão completamente afastadas do resto do mundo. Todos nós fomos expostos a narrativas históricas e sociais que levam a que tenhamos ideias pré-concebidas sobre vários grupos de pessoas. A sociedade moçambicana tem várias destas ideias ao ponto de as nossas expressões culturais abordarem estes preconceitos, por exemplo a música “Cão de Raça” do Azagaia fala dos vários preconceitos que nós temos em relação às raças em Moçambique.

Este tipo de racismo é inescapável porque basta conhecer o preconceito, saber da sua existência, para tê-lo sempre lá no fundo. Isto não significa que alguma vez vamos agir em relação a uma pessoa de maneira diferente conscientemente, mas o nosso subconsciente às vezes prega-nos surpresas. Por exemplo há um teste online que detecta preconceitos inconscientes acerca de pessoas que pertencem a raças diferentes. Este teste mostra que independentemente das nossas crenças politicas, a maior parte das pessoas confia em homens mais do que em mulheres, em pessoas brancas mais do que em pessoas de côr e em heterossexuais mais do que em homossexuais. A pergunta óbvia é: “Qual é o problema de ter preconceitos subconscientes, se conscientemente eu nunca actuo de acordo com eles, eu tenho amigos negros e homossexuais e voto em mulheres?” O problema é que estes preconceitos subconscientes influenciam as nossas decisões, fazem com que a gente simpatize mais com o candidato homem por exemplo, o que significa que damos o emprego a ele.

Há uns anos atrás uma psicóloga queria testar a influência que preconceitos positivos e negativos contraditórios têm sobre o desempenho académico. Ela escolheu trabalhar com mulheres de origem asiática nos EUA e medir o desempenho delas em testes de matemática. Ela pegou em mulheres que estavam a fazer cursos com muita matemática que estavam no topo das suas turmas (top 1% da turma), isto é estas mulheres eram todas muito boas a matemática e sabiam que eram boas a matemática. A sociedade americana têm o preconceito de que as mulheres não são boas a matemática e também tem o preconceito de que as pessoas de origem asiática são boas a matemática. Então ela dividiu estas mulheres em 3 grupos e deu-lhes o mesmo teste de matemática. Antes de começar o teste as mulheres preencheram um questionário com dados biológicos. O questionário do primeiro grupo pedia para identificar a raça, mas não o género. O do segundo pedia para identificar o género, mas não a raça. O do terceiro não pedia informação sobre raça ou género. O primeiro grupo teve as notas mais altas, a seguir o terceiro e por fim o segundo. Uma pequena, quase insignificante, lembrança sobre preconceitos positivos e negativos teve efeito nas notas destas mulheres. Conscientemente todas estas mulheres sabem que são muito boas a matemática, mas inconscientemente bastou lembrar-lhes que eram mulheres para elas errarem mais perguntas ou lembrar-lhes que eram asiáticas para errarem menos. Este é o poder que os preconceitos inconscientes podem ter sobre nós.

Este aspecto do racismo individual, o dos preconceitos conscientes e inconscientes e a influência que estes têm na nossa tomada de decisões é um dos braços do racismo sistémico. Se a maior parte dos empregadores têm o preconceito de que certas raças fazem certos trabalhos melhor que outras raças então rápidamente as prácticas destes empregadores vão dão reforçar os preconceitos. Por exemplo, nós moçambicanos temos o preconceito de que os brancos não sabem limpar bem, então se estamos a contratar pessoas para limpar, não vamos contratar brancos. Por sua vez o facto de não haver brancos a fazer limpeza reforça a ideia de que brancos não sabem fazer esse trabalho.

Esta influência que o racismo tem na sociedade que contribui para manter as dinâmicas de poder intactas é o aspecto do racismo que é mais dificil mudar.

É possível criar leis e condições sociais que limitem a expressão do racismo por indivíduos. Mas estes indivíduos continuam a ser racistas, só já não o dizem em voz alta.

É fácil criar leis que garantem a igualdade de direitos e deveres para todos os cidadãos. O que é difícil é perceber quando é que os nossos preconceitos inconscientes estão a influenciar essas leis de maneira a torná-las injustas. Por exemplo, nos EUA não existe uma lei que garanta a igualdade de salários entre trabalhadores que têm a mesma função. Cada pessoa pode (e deve) negociar o seu salário independentemente. Assim no meu departamento aqui na universidade, por exemplo, há professores que recebem $200 000 (ano) e outros que recebem $65 000 (ano) e isto não é de acordo com o tempo de trabalho. Esta lei, a priori, parece justa; quem faz melhor trabalho ou tem melhor capacidade de negociação recebe o maior salário. O problema é que na prática nos EUA a hierarquia dos salários é a seguinte: homens asiáticos (média $60 000 ano), homens brancos, mulheres asiáticas, mulheres brancas, homens afro-americanos e das ilhas do Pacífico, homens nativo-americanos, mulheres afro-americanas, mulheres das ilhas do Pacífico, homens latino-americanos, mulheres nativo-americanas, mulheres latino-americanas (média $30 000 ano). Se aceitarmos que do ponto de vista biológico não existem diferenças entre homens e mulheres e entre pessoas de várias origens étnicas que resultem em diferenças em desempenho no mercado de trabalho, isto é todos os seres humanos têm as mesmas capacidades, então numa sociedade justa esta hierarquia de salários não existiria. Assim a lei salarial dos EUA que em principio é uma lei justa, do ponto de vista capitalista (quem trabalha mais, luta mais, recebe mais), acaba reforçando os estereótipos raciais que existem aqui, isto é reforça o racismo (e machismo) sistémico.

O racismo não é um fenómeno simples e fácil de explicar. As ramificações do mesmo são às vezes muito difíceis de identificar e perceber. Um dos problemas do racismo que os movimentos de consciência e orgulho negro identificaram no século passado é que não só a sociedade branca tinha se convencido a si própria de que os negros eram seres inferiores (que talvez nem sequer tinham alma) mas que os próprios negros tinham incorporado muitos dos preconceitos na sua auto imagem. Este ódio de si próprio vai desde aspectos físicos como o tom da pele, a grossura dos lábios, o desenho do nariz, a crespes do cabelo; mas também inclui ideias de que a natureza do homem negro é inferior à do homem branco como achar que “os brancos inventam, os negros destroem” ou que os negros têm “horário africano” por exemplo. O combate a este problema passa necessariamente por mostrar de onde vêm estas ideias; que estas características não são exclusivas aos negros, outros grupos também têm (especialmente os brancos, já que a outra face do ódio ao negro é a veneração do branco); e que existem pessoas e comunidades negras que não têm estas características. Isto é, há que tirar o branco do pedestal e ao mesmo tempo tirar o negro do buraco e trazê-los para a terra. É importante fazer os dois porque o sistema colonial criou uma narrativa onde não só o negro era inferior como o branco era superior. Então é preciso eliminar a ideia da inferioridade do negro, mas isso não chega, temos também de eliminar a ideia da superioridade do branco (tanto para os negros como para os brancos).

A superioridade (supremacia) branca é um conceito difícil de explicar. Primeiro, provavelmente, porque a palavra lava-nos a pensar no Hitler e nos nazis e resulta num bloqueio mental quase automático “Eu não me acho superior a ninguém!” O problema é que existe um complexo de superioridade, muitas vezes subconsciente, que é reforçado pela história e pela sociedade. E não existe nenhum outro termo adequado para descrever este complexo a não ser superioridade. Por exemplo, quando a gente aprende na escola que a História começa com a invenção da escrita, tudo o que está antes disso é Pré-História; e depois aprende que as tribos africanas tinham tradição oral até à chegada dos europeus; é natural que a gente acredite, pensando que estamos a ser objectivos, que os europeus trouxeram os africanos para a História, que antes da chegada dos europeus os africanos viviam na Pré-História. É este tipo de racionalização que leva a que os brancos se sintam superiores, pelo menos como grupo, aos negros. Claro que isto ignora por completo que na África Ocidental existem bibliotecas pessoais das mais antigas do mundo, por exemplo. Para não falar da politica explicita dos governos europeus de destruir e/ou roubar toda a evidência de História no continente.

Um outro conceito bastante difícil de engolir é o conceito do privilégio que resulta das injustiças sociais. O problema do privilégio é que ele tira crédito das nossas vitórias pessoais. Por exemplo, os meus pais começaram a vida sem nenhuma poupança pessoal e sem nenhum negócio de família e construíram tudo o que têm com o seu próprio trabalho e esforço. Mas quando eu digo que eles são privilegiados (eles próprios dizem) dá a sensação de que eu estou a dizer que eles não merecem o que têm hoje. A questão não é que eles não merecem. A questão é que eles não merecem mais do que o camponês que também começou do nada e trabalhou a vida toda e hoje continua a viver na pobreza. O camponês trabalhou tanto quanto eles (se não mais), foi tão honesto quanto eles e no entanto não conseguiu sair da miséria. Os meus pais, apesar de terem começado do nada, faziam parte de uma elite que lhes abriu as portas para oportunidades a que a maior parte dos moçambicanos até hoje não têm acesso. Ter o português como língua materna é uma vantagem; ter livros em casa é uma vantagem; saber as fábulas das raposas e as fábulas dos macacos, é uma vantagem; ter ido à escola em Maputo (Lourenço Marques) com professores bons, é uma vantagem; viver em Maputo numa casa do APIE quando este resolveu privatizar a habitação, é uma vantagem; para além de muitas outras. Todas estas vantagens contribuíram para que a minha família hoje continue a fazer parte da elite. Admitir estes privilégios, estas vantagens, não é invalidar o esforço e o trabalho que os meus pais fizeram para chegar onde estão hoje, mas é reconhecer que a nossa sociedade é injusta e que as nossas vitórias não se devem apenas ao nosso esforço individual, mas também ao facto de sermos beneficiados pela injustiça social do país. Isto é, nós merecemos o que temos, mas os outros que não têm também mereciam e o primeiro passo para garantir que eles passem a ter o que merecem é admitir que a sociedade é injusta e nos beneficia a nós. Uma vez admitido isto, podemos criar leis e programas sociais que tornem a sociedade mais justa.

 

Resumindo:

– o racismo é um sistema social complexo que influencia as relações interpessoais de maneiras nem sempre óbvias

– para combater o racismo é preciso educar as pessoas sobre o que é o racismo e destruir as ideias de inferioridade negras e as ideias de superioridade branca; frisando a igualdade de todos os seres humanos

– para atingir o objectivo de uma sociedade justa há que identificar os padrões de privilégio em acção na nossa sociedade e tomar medidas para diminuir o seu impacto; isto enquadra-se no combate ao racismo porque na nossa sociedade o privilégio está indiscutivelmente ligado à raça (apesar de também ser um problema de classe; mas não existem brancos camponeses a viver em pobreza absoluta)

 

Eu acredito que se a nossa sociedade mostrar um comprometimento explícito com estes princípios, via campanhas de educação e acções concretas por parte do parlamento, governo e sociedade civil, nós vamos construir uma sociedade mais justa para todos; e vamos também combater a tendência para o aumento da tensão racial no país.

Por outras palavras eu acredito que é meu dever moral continuar a fazer activismo pró consciência e orgulho negro em Moçambique. Porque mesmo quase 30 anos depois os meus heróis ainda são o Samora, a Josina, o Kaunda, o Nyerere, para além de outros.

Qual é a Lei que o executivo usou para determinar que a manifestação do Fórum Mulher foi ilegal?

No Despacho Nº.01/EA/GMI/2016 do Ministério do Interior, Gabinete do Ministro, vem escrito que a Eva Moreno, cidadã espanhola que foi expulsa do país hoje, “envolveu-se activa, aberta e publicamente numa manifestação ilegal (…) em protesto contra a obrigatoriedade de uso, nas escolas primárias e secundárias, de saias cujo comprimento deve ultrapassar os joelhos.” (este despacho é de 28 de Março)

Um comunicado de imprensa com a data de hoje (30 de Março) do Gabinete de Relações Públicas do mesmo ministério, volta a alegar a ilegalidade da manifestação.

O direito à manifestação vem garantido na Constituição da República de Moçambique (CRM), no Artigo 51 do Capítulo II. Obviamente quem escreveu a nossa CRM achou que este direito era importante, doutra maneira não o tinha posto lá. Qualquer outra lei nacional que regule o exercício deste direito não pode ir contra o espírito da CRM. Se por um lado é importante que o exercício do direito seja regulado para não interferir com o exercício de outros direitos, por outro lado o Estado não deve poder limitar este direito (o da livre manifestação).

Em 1991, antes do Acordo Geral de Paz, logo antes de termos um Estado democrático, são passadas 2 leis que limitam severamente o direito à manifestação. Em 2001 a Assembleia da República corrige esta afronta ao espírito da CRM na Lei nº7/2001. A lei de 2001 claramente diz que vem para corrigir as leis anteriores, logo tornando-as inválidas.

Tanto quanto eu pude apurar apenas existem 2 leis em vigor que abordam a questão do direito à manifestação: a CRM (que garante o direito) e a Lei nº7/2001 que limita o mesmo se a manifestação “ofender a Constituição, a lei, a moral, os bons costumes e os direitos individuais ou das pessoas coletivas”. Este é o único impedimento legal.

Então a pergunta que eu faço é: que aspecto específico na manifestação de protesto contra a obrigatoriedade de uso de saias compridas nas escolas, tornou-na numa manifestação ilegal do ponto de vista do Executivo? E qual é a lei em que o Executivo se está a basear?

O problema não são as saias. As saias são só um sintoma do problema. Este não é o momento certo para ficar calado.

Há uma escola nos movimentos de justiça social que diz que chega a uma certa altura em que as pessoas que pertencem ao grupo privilegiado devem se calar e escutar as pessoas que pertencem ao grupo oprimido. Este não é um desses momentos. Se as saias fossem realmente o problema, então sim, eu diria que os homens deveriam ouvir mais que falar. Mas o tamanho das saias não é o verdadeiro problema, é apenas um sintoma do mesmo.

O Ministério da Educação não decidiu regulamentar o comprimento das saias por razões de padronização ou de estabelecimento de regras claras sobre o uniforme escolar. Se tivessem sido estes os motivos a decisão não teria sido tão alarmante, grupos progressistas poderiam ainda argumentar que o MINEDH estaria a legitimar ideia de que a imagem da mulher deve ser regulamentada, mas essa conversa teria os seus nuances. Não foi isto que aconteceu. O MINEDH tomou a decisão de regular o comprimento das saias porque o mesmo estava a atrapalhar os professores e alunos do sexo masculino e a contribuir para ocorrências de assédio sexual nas escolas. Não há nenhuma nuance nesta maneira de apresentar o problema. Esta medida tem muito pouco a ver com o estabelecimento de regras e tudo a ver com a maneira como nós, como sociedade, encaramos as mulheres.

Para poupar tempo vamos começar com concordar nos seguintes aspectos. Primeiro, os estabelecimentos de ensino têm o direito de padronizar o uniforme escolar e de exigir que os alunos sigam as regras para o mesmo. Segundo, nem todas as roupas são adequadas para todos os ambientes. Por exemplo, um biquíni é roupa adequada para ser usada na praia ou na piscina, mas não na igreja. Tendo isto em conta não é descabido que se diga que certas saias não são a roupa adequada ao ambiente escolar.

Assim não vamos nos ocupar a conversar sobre regras e sobre desfiles de moda nas escolas. Vamos falar doutros aspectos à volta deste assunto. A Lara Fraga já escreveu sobre a problemática da sexualização do corpo da mulher e do facto que este é considerado propriedade pública. O Boaventura Monjane falou sobre como a cultura machista influencia como nós temos estado a abordar este assunto. Convido-vos a lerem o que eles escreveram e a refletirem sobre os aspectos que eles abordaram.

O meu objetivo hoje é mais prático que teórico. O que eu quero é pedir, na verdade implorar, que toda a gente que sente pelo menos uma gotinha de indignação sobre este assunto expresse essa indignação. Principalmente os homens, este é um pedido dirigido aos homens: falem!

Nas próximas duas semanas até ao dia 7 de Abril (Dia da Mulher Moçambicana), usem um bocadinho do vosso tempo e contribuam para a emancipação da mesma de maneira activa: falem!

Se és feminista, meio-feminista, mau-feminista. Fala!

Se gostas do feminismo, mas não das feminazis. Fala!

Se não gostas do feminismo, preferes o humanismo ou o egalitarismo. Fala!

Se nunca pensaste no feminismo e não tens opinião sobre isso; mas acreditas que as mulheres são seres humanos iguais aos homens e que a sociedade lhes deve os mesmos direitos. Fala!

Se achas que a ideia de que as saias atrapalham os homens é ofensiva para ti como homem, afinal tu tens capacidade de te controlares. Fala! Conta-nos como tu não deixas de ser responsável pelas tuas acções devido a uma saia curta numa mulher.

Se achas que estamos a passar a mensagem errada para o teu filho. Que ele vai crescer a incorporar que o cabelo vistoso da colega é uma desculpa aceitável para não prestar atenção na sala de aulas. Fala!

Se achas que a ideia de que pernas de crianças excitam sexualmente adultos a quem a gente confia as mesmas crianças, os professores, é assustadora. Fala!

Se achas que a nossa sociedade é mais perigosa para as mulheres devido a atitudes e crenças de todos nós. Fala!

Conta-nos porquê tu achas que a sociedade é perigosa para as mulheres. Fala!

Se achas que isso de direitos iguais é muito bom, mas que devemos também ensinar as meninas a se precaverem para não serem atacadas. Fala!

Se te assusta que alguém vai pensar nas mulheres que tu amas, a tua mãe, as tuas irmãs, as tuas filhas, as tuas amigas, da maneira que estes homens obviamente pensam sobre estas meninas anónimas. Fala!

Conta-nos como estas mulheres que tu amas não são “putinhas” só porque usam saia acima do joelho. Conta-nos como te assusta pensar que o machismo moçambicano significa que as mulheres que tu amas podem ser assediadas a qualquer momento que saem de casa. Fala!

Se achas que saias demasiado curtas não pertencem nas escolas mas que saias até aos pés são uma patetice. Fala!

Se não te preocupa a medida do MINEDH, mas preocupa-te a maneira como o assunto está a ser debatido na esfera pública. Fala!

Se concordas em absoluto com o MINEDH e achas que as meninas que usam saias acima do joelho são “putinhas”, mas defendes o direito à livre manifestação garantido na constituição. Fala!

Se “foste Charlie” apesar de não gostares dos desenhos deles; se defendeste o Eric Charas apesar de não gostares das posições que ele toma; se não queres que o governo assassine o Dlhakama; se sempre foste a favor do direito de manifestar apesar de não concordares com os manifestantes. Sê coerente! Fala!

Se estás a pensar duas vezes antes de falar porque sabes que outros homens, e mulheres, vão mudar a opinião deles em relação a ti. Fala! É teu dever moral e ético falar. De que nos vale os nossos princípios morais teóricos se na hora do vamos ver acobardamo-nos? Lembra-te que as pessoas que vão pensar menos de ti por falares a favor dos direitos das mulheres pensam menos de todas as mulheres. De que lado é que tu queres estar?

Se achas que falar não vai resolver nada. Fala na mesma. Pelo menos deixaste claro que não concordas com esta situação. Nunca calar é parte da nossa história. Se nós tivéssemos pensado assim como país não tínhamos ajudado os povos do Zimbabué e da África do Sul a lutarem contra governos de minoria branca. Fala!

Lembra-te que as consequências negativas para ti vão se resumir a alguém pensar mal de ti. As consequências negativas para as mulheres que estão a falar vão muito para além de alguém pensar mal delas, isso é o status quo – afinal estamos a falar das “putinhas” das nossas alunas. Fala!

Se a teoria é o feminismo. Se a teoria é que somos todos iguais. A prática é lutarmos juntos para uma sociedade que nos trata a todos como iguais. A forma de luta mais fácil é esta que eu te estou a pedir: FALA! Meu irmão, fala!

Eu não quero flores para o dia 7 de Abril. Não quero poemas que digam como a mulher moçambicana é bonita, trabalhadora e corajosa. A única coisa que eu quero para o dia 7 de Abril é que tu, meu irmão moçambicano, te juntes à nossa luta por uma sociedade que trata a mulher como um ser humano igual ao homem.

 

Zika – história

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No último trimestre do ano passado o Brasil soou o alarme para um aumento nos casos de microcefalia em recém nascidos. Microcefalia é o nome que se dá quando uma criança nasce com a cabeça mais pequena do que é esperado para o tamanho. O grau de gravidade desta doença depende de quão mais pequena é a cabeça comparada ao normal. Algumas pessoas com microcefalia vivem uma vida normal e até têm curso superior. Mas, em geral, as pessoas com microcefalia têm pelo menos alguns problemas de aprendizagem e muitas morrem ainda bebés. Logo, este aumento nos números de bebés a nascer com microcefalia deixou as autoridades sanitárias brasileiras muito preocupadas.
A primeira pergunta foi: o que está a causar este aumento nos números?
Existem vários indícios que apontam para a infecção com o vírus Zika como a causa da microcefalia em recém nascidos. Eu vou discutir este assunto daqui a uns dias. Hoje eu queria começar por contar a história do vírus Zika.

Normalmente eu diria que a história que vou contar é uma versão abreviada dos factos. Neste caso não é. Existe tão pouca informação sobre o vírus Zika que não é preciso abreviar nada. Dá para falar de todos os artigos científicos desde que foi descoberto o vírus sem cansar ninguém.

Nos anos 40 dois cientistas estavam a tentar isolar um outro vírus no Uganda, o vírus da Febre Amarela. Eles sabiam que a doença era causada por um vírus, mas precisavam de uma amostra do próprio vírus para poder estudá-lo. Então eles construíram uma torre na floresta Zika com plataformas a várias alturas. Em cada plataforma tinha uma jaula com um macaco a viver dentro. O objectivo era monitorar os macacos até um deles ficar doente e depois isolar o agente causador da doença. As plataformas estavam a várias alturas porque vectores (insetos que transmitem as doenças) vivem a várias alturas. Assim se o macaco da altura A ficasse doente, mas não o da altura B eles tinham uma ideia de que espécie de mosquito é que estava a transmitir a doença.

No dia 18 de Abril de 1947 o macaco 766 ficou com febre. Três dias depois os cientistas tiraram sangue deste macaco e infetaram ratinhos. Estes ratinhos ficaram doentes e os cientistas isolaram o “agente causador da doença”. Em Janeiro do ano seguinte os mesmos cientistas colheram mosquitos nas mesmas plataformas, infetaram ratinhos e isolaram o mesmo agente que tinha causado doença no macaco 766. A partir daí o agente causador passa a chamar-se vírus Zika, por ter sido descoberto na floresta Zika.

Os cientistas continuaram a trabalhar com o vírus no Uganda. Uma das primeiras perguntas que eles investigaram foi: o vírus Zika é capaz de infectar que animais? Infecções em vários pequenos mamíferos mostrou que o vírus pode infectar macacos, coelhos, ratinhos da Índia; mas apenas causa lesões em ratinhos de laboratório. Apenas 6 de 99 pessoas de vários lugares no Uganda testaram positivo para anticorpos contra o vírus Zika.

Em 1964 um médico na Nigéria reporta casos de Dengue atípicos (com sintomas que não batem 100% com uma infecção por Dengue), com sintomas menos severos mas com envolvimento do fígado. Este médico acredita que está perante os primeiros casos de doença causada pelo vírus Zika em humanos. Mais tarde um outro cientista contestou que o vírus causador destes casos não era o Zika, mas sim outro. Apenas um destes pacientes, uma menina de 10 anos tinha anticorpos contra o vírus Zika, e ela não tinha sintomas que envolvessem o fígado.

Em 1964 um acidente de laboratório leva à infecção de um cientista com o vírus Zika. Pela primeira vez (este é apenas o segundo caso confirmado de Zika em humanos) é reportada uma erupção cutânea (irritação na pele, que fica vermelha) como sintoma da infecção. O cientista infetou ratinhos de laboratório com o seu sangue e confirmou que realmente o que lhe estava a causar a doença era o vírus Zika. Na altura ele comentou que não era de espantar que o vírus nunca tinha sido isolado de humanos já que os sintomas da infecção eram muito suaves.

Em 1973 há um outro acidente de laboratório, desta vez em Moçambique, e mais um cientista fica infectado com o vírus Zika. A doença tem sintomas leves e dura uma semana.

Durante as décadas de 70 e 80 vários países começam a reportar presença de anticorpos contra o vírus Zika em pessoas e macacos. Mas há poucos casos de doença activa em pessoas, apenas um ou outro na Nigéria e na Indonésia.

E depois há silencio absoluto sobre o vírus Zika até 2007 quando médicos na ilha Yap da Micronésia começam a reportar casos de Dengue com sintomas leves/suaves mas com erupção cutânea. Análises laboratoriais mostraram que eram, na verdade, casos de infecção com o vírus Zika. Testes mostraram que 74% da população da ilha tinha anticorpos contra o vírus e os cientistas acreditam que 5 000 pessoas foram infetadas durante esse surto; das quais 900 tiveram alguns sintomas e nenhuma precisou de baixar no hospital. Um dado surpreendente deste surto é que nenhum mosquito foi encontrado com o vírus.

Depois houveram alguns casos isolados de viajantes para terras endémicas. Nos EUA foi reportado o primeiro caso transmitido por via sexual.

Em 2013 a Polinésia Francesa tem um surto com 333 casos confirmados e 19 000 casos suspeitos. Pela primeira vez são reportados sintomas sérios, principalmente neurológicos como Guillian-Barré (pode causar paralisia temporária e às vezes morte). Pela primeira vez dois bebés estão infetados à nascença, não é claro se a infecção acontece dentro do útero ou durante o trabalho de parto. De qualquer maneira os dois bebés não têm nenhuma anomalia duradoira.

Mais alguns casos de Zika adquirido durante viagens.

Em Março de 2015 médicos no nordeste do Brasil, no meio de um surto de Dengue (que dura até hoje), começam a reportar casos atípicos; com sintomas mais leves e que testavam negativo para anticorpos contra Dengue. Isto leva os pesquisadores brasileiros a suspeitarem do vírus Zika. Estes casos são confirmados como infecções por Zika em Maio de 2015. É dado um alerta pelas autoridades sanitárias para os médicos ficarem atentos a sintomas neurológicos da infecção por Zika, como os que tinham sido reportados na Polinésia Francesa. Em Agosto, 5 meses depois do primeiro alerta para um Dengue estranho, começam a nascer mais crianças com microcefalia do que o normal. Em pouco tempo os obstetras brasileiros avisam que há um surto de microcefalia na região.

Nos próximos dias eu vou explicar:
1) a progressão do surto no Brasil
2) as pistas de que a infecção leva à microcefalia
3) as pistas de que a infecção leva ao Guillian-Barré
4) as consequências para Moçambique

Se quiserem podem deixar sugestões nos comentários de mais alguma pergunta relacionada que queiram que eu aborde.

Um mapa da expansão do vírus pode ser encontrado aqui.

O portugês é língua madrasta… que veio de barco.

Em 2008 eu fui viver para a Inglaterra. Naquela altura a internet não era tão fácil como hoje. Não havia WhatsApp, ou pelo menos nós ainda não usávamos muito, nem sequer era normal ter net no celular. Então, ainda não havia a facilidade de comunicação que há hoje. Durante esse ano eu fiquei semanas sem falar com ninguém em português, sem nem sequer ouvir português. Um dia ouvi umas pessoas a falar português e quis falar com elas e aconteceu-me uma coisa super estranha. Não conseguia me lembrar das palavras em português, pura e simplesmente não me saiam as palavras. Quando finalmente consegui me lembrar de algumas palavras saiu tudo com sotaque inglês. Como foi estranho ouvir-me a mim mesma falar português com sotaque inglês. Nunca esqueci a sensação desse dia e jurei para mim mesma que não ia deixar isso acontecer outra vez. Havia de arranjar maneira de falar em português onde quer que fosse.

O português é a minha língua materna. É a língua onde eu melhor expresso as minhas emoções. É a língua onde me é mais fácil contar e fazer matemática. É a língua onde eu me sinto em casa. Eu gosto da língua portuguesa, eu gosto de falar português, eu gosto de ouvir português. Quando eu ouço alguém a falar português fora de Moçambique é muito difícil resistir a tentação de puxar conversa com essa pessoa. E assim vou conhecendo estranhos com quem única coisa que tenho em comum é a língua.

Eu falo inglês desde os 6 anos. Todos os testes de proficiência linguística que já fiz dizem que o inglês é para mim como uma língua nativa. Isto é, uma verdadeira segunda língua. No entanto, eu posso afirmar sem nenhuma sombra de dúvida que o português é e vai continuar a ser a língua com a qual eu mais me identifico. Até a minha maneira de contar histórias é baseada na língua portuguesa. Em inglês as histórias são lineares, tem um principio, um meio e um fim. Um passo segue o outro e não há distrações. Em português as histórias têm pequenas historinhas secundarias que a gente vai contando que não são necessárias para a história principal mas que têm um propósito na nossa maneira de contar histórias. Por exemplo, eu acabei aqui neste parágrafo de contar uma história secundaria ao meu texto principal. Quando eu penso na melhor maneira de construir um argumento eu sempre penso nas histórias secundarias que vão enriquecer o mesmo. Isto é porque para mim a argumentação é melhor em português, apesar de eu ter aprendido a debater formalmente em inglês.

Eu acho a língua portuguesa extremamente bonita. Ela é complexa o suficiente para permitir nuances que no inglês são mais difíceis de conseguir. No entanto as regras gramaticais são lógicas e elegantes. O português tem uma história rica e interessante. É uma língua adaptável e que incorpora várias culturas sem perder a sua identidade. É uma língua maleável e divertida, sempre adorei que ladra, ladroa e ladrona são todas maneiras aceitáveis de escrever o feminino de ladrão.

Eu não sou muito de purismos. O meu amor pela língua portuguesa não vai diminuir se parar de escrever o p em óptimo ou o c em facto. Se eu vivi a vida toda a saber a diferença entre meia (do pé) e meia (de metade); e a diferença entre manga (da camisa) e manga (a fruta), também vou conseguir distinguir entre cágado e cagado mesmo que o acento vá à vida. Mas não quero com isto fazer pouco da afeição à grafia corrente que as pessoas sentem. Apenas dizer que a minha afeição à língua não se baseia nesses pormenores. Também não me importo muito com certos hábitos linguísticos que gramaticalmente estão errados. Para mim está tudo bem quando a gente em Moçambique responde a uma pergunta com a palavra “ainda” (o correto seria “ainda não”). Por outro lado acho que em ambientes profissionais devemos nos esmerar por falar e escrever de acordo com as normas, pelo menos as locais. Faz-me confusão lêr jornais com erros ortográficos e gramaticais gritantes. Esta cultura que se está a instalar em Moçambique onde não há cuidado com a escrita correcta preocupa-me.

Eu reconheço a afeição que tenho com a língua portuguesa. Percebo que eu também tenho, às vezes, opiniões fortes sobre como se deve falar e escrever. É por isso que eu dou tanto valor às línguas maternas dos outros. Nós temos um vinculo muito forte com a nossa língua materna. Este é um assunto sério.

A língua portuguesa é a língua oficial em Moçambique. Como língua oficial tem privilégios que as outras línguas nacionais não têm. Toda a vida formal em Moçambique é feita em português. Todas as leis estão escritas em português. É a lógica da língua portuguesa que dita o pensamento lógico em Moçambique. É a língua do ensino. É a língua do comercio. É a língua da burocracia. Quase toda a nossa literatura é escrita em português. A nossa história foi escrita em português. Os nossos debates sobre política são escritos e, quase sempre falados, em português. O único espaço que a língua portuguesa não ocupa por completo na nossa sociedade é o espaço das conversas privadas e a rádio.

A discussão acesa sobre o acordo ortográfico em Moçambique mostrou que nos espaços onde a língua portuguesa é rainha, toda a vida formal, a preocupação com a mesma é grande. Os moçambicanos gostam tanto da língua portuguesa que, ao contrário de mim, não querem abrir mão de consoantes mudas. É comum ouvir pessoas que são fluentes na mesma língua moçambicana a falarem em português uma com a outra. E todos os moçambicanos que eu já conheci fora de Moçambique ficam tão contentes como eu quando ouvem português.

Há muita gente em Moçambique que só sabe falar português de todas as línguas nacionais. Seja porque vem de famílias que nunca falaram nenhuma outra língua moçambicana, porque é de uma família que foi assimilada há muitas gerações atrás ou porque a vive longe de outras pessoas que falem a língua da família (por exemplo um Ndau em Maputo). Para esses moçambicanos o português é a língua nacional que os identifica.

O português é a língua oficial em Moçambique e quanto mais os anos passam mais essa posição se vai reforçar. A posição da língua portuguesa em Moçambique é sólida e não há nenhuma possibilidade de esta deixar de ser a língua mais importante do país. A língua portuguesa em Moçambique não precisa de ser defendida contra inimigos reais ou imaginários.

As línguas que estão sob real ataque em Moçambique são todas as outras, principalmente as línguas de comunidades mais pequenas. O ataque começou durante o tempo colonial quando as línguas moçambicanas foram reduzidas a dialetos, e continua até hoje. É possível viver em Moçambique e participar da vida formal do país sem saber nenhuma outra língua que não o português. Aliás saber falar e escrever perfeitamente qualquer outra língua moçambicana, que não o português, não confere praticamente nenhuma vantagem na vida profissional em Moçambique. A maior parte dos moçambicanos nunca viu a sua língua materna escrita. A maior parte dos moçambicanos nem sequer sabe que a sua língua materna pode ser escrita. No entanto eu acredito que a maior parte dos moçambicanos tem um vinculo tão forte com a sua língua materna como o que eu tenho com a minha. A diferença é que toda a sociedade moçambicana valoriza a minha, enquanto que quase ninguém valoriza as outras. Nesta realidade onde 99% das conversas (na vida formal) são em português ou sobre o português é vital que a gente deixe que as conversas sobre as outras línguas existam sem sentirmos necessidade de defender a língua portuguesa – aliás a conversa quase que de certeza absoluta já vai estar a ser em português.

A língua é uma das influencias mais duradoiras do colonialismo. É também uma das injustiças sociais que vai ser quase impossível reparar. A realidade é que, tirando raras excepções, as línguas africanas perderam valor como consequência do colonialismo. E não há nenhuma maneira prática de lhes devolver a importância que as sociedades de onde elas são merecem. Promover e valorizar as línguas africanas é uma questão de devolver a dignidade às comunidades locais. É dizer “a tua língua materna é importante e especial e merece ser escrita e falada”. Validar esta relação emocional que as pessoas sentem em relação à sua língua materna é importante.

Para além deste aspecto emocional temos também que ter em conta as dinâmicas de poder à volta da língua. Quem não domina o português em Moçambique vai ter dificuldade em progredir em termos de carreira. Isto significa que a nossa sociedade naturalmente discrimina contra pessoas que não têm o português como língua de comunicação em casa. Isto é, discrimina contra os pobres e os camponeses. A língua portuguesa serve como um instrumento de exclusão dos menos privilegiados da nossa sociedade. Isto é resultado da nossa história e não há muito que se possa fazer para mudar esta realidade. No entanto uma coisa que é fácil fazer é não cair na tentação de atacar o orgulho pelas outras línguas moçambicanas ou na tentação de tornar todas as conversas sobre a língua portuguesa.

Deixemos que algumas conversas sejam sobre as outras línguas nacionais. Deixemos que cada um celebre o seu amor pela sua língua materna.

Em defesa do tribalismo

No dia 11 de Fevereiro de 1990 o Nelson Mandela sai da prisão, depois de 27 anos, e começa as negociações para a paz com o governo do Apartheid. A postura que ele decidiu tomar na altura foi de reconciliação com os brancos sul-africanos. As razões que o levaram a escolher este caminho não são tão evidentes quanto parecem. Os primeiros discursos de Mandela, depois de sair da prisão, não têm o mesmo tom conciliatório a que nos habituámos mais tarde. Mas o facto é que, ao fim de um ano de liberdade, ele tinha decidido que o melhor caminho para a África do Sul e para o povo sul-africano era a construção da ideia da “Nação Arco-Íris”. Foi por ele estar tão certo de que esse era o melhor caminho que ele conseguiu, a custo, convencer os outros membros do ANC e depois chegar a acordo com o Partido Nacional, que estava no poder.

As primeiras eleições livres, em 1994, marcam o fim definitivo do Apartheid na África do Sul e o país embarca na difícil tarefa de manter os níveis de produção e, ao mesmo tempo, elevar a condição de milhões de sul-africanos negros. Para lidar com a desconfiança entre os grupos raciais foi criada a Comissão de Verdade e Reconciliação – durante anos várias pessoas passaram em frente à televisão a confessar e justificar os crimes que tinham cometido. Em 1999, quando acaba o mandato do presidente Mandela, parecia que o sonho da Nação Arco-Íris ia funcionar. A África do Sul estava ainda numa onde de optimismo contagiante que dava gosto ver.

Infelizmente este último ano (na verdade os últimos 10 anos) tem estado a mostrar uma realidade um bocado diferente. As manifestações que começaram na Universidade da Cidade do Cabo para a remoção de uma estátua de um colono britânico transformaram-se num movimento nacional contra os resquícios do colonialismo que persiste na África do Sul. Este movimento está a expor as diferenças entre os grupos raciais no país e a lembrar feridas mal saradas. Há várias pessoas a questionarem o projecto da “Nação Arco-Íris”, não só a execução mas também a concepção, a ideia de que foi pedido às vitimas para perdoarem ao agressor sem primeiro ter sido pedido ao agressor que admitisse o crime. A verdade é que está a tornar-se inegável que a estratégia que o Mandela escolheu não é suficiente para garantir reconciliação entre os grupos raciais na África do Sul. Vai ser preciso ainda muito trabalho por parte do governo sul-africano.

Em Moçambique nós também escolhemos o caminho da reconciliação “forçada” não uma, mas duas vezes desde a independência. Primeiro durante o processo de independência e da construção do “novo homem”. A segunda vez foi depois dos acordos de paz, em 1992, quando decidimos que agora éramos todos irmãos. As vantagens desta politica são compreendidas e, penso eu, aceites pela maioria dos moçambicanos. Faz parte da nossa auto imagem que em Moçambique nós não temos esses problemas de racismo, como na África do Sul, nem de tribalismo, como na Nigéria. Não é bem que está tudo bem, mas é que nós somos pacíficos e nos entendemos no final de tudo.

Há dois problemas com esta nossa politica de fingir que as zangas passadas acabam magicamente no acto da assinatura de acordos de paz. O primeiro é que não deixamos espaço, a nível oficial, para as pessoas verbalizarem os sentimentos negativos que ainda têm. Sentimentos negativos têm o hábito de vir ao de cima em situações de conflito. Assim, normalmente somos todos moçambicanos, mas numa briga já “os Ndaus são confusos” e “os MaShanganas são ladrões”.

O segundo problema é que a pacificação é feita a partir da construção da identidade comum e depende desta. Isto significa que andamos há 40 anos a celebrar o que nos une – como a língua portuguesa e a suposta natureza pacífica da “boa gente” de Moçambique – e a ignorar (e quase a demonizar) o que nos distingue uns dos outros – toda e qualquer manifestação do famoso tribalismo. Esquecemo-nos que a identidade pessoal de cada um está intimamente ligada à sua língua materna e aos usos e costumes da sua gente. Ao recusarmo-nos, como país, a celebrar as diferentes culturas e pontos de vista de cada tribo moçambicana estamos a atacar a identidade dos moçambicanos. Depois ficamos surpreendidos quando as pessoas não confiam umas nas outras de acordo com linhas tribais e culturais.

Nós, como nação, herdamos uma realidade complicada. Temos partes de nações (tribos) dentro da nossa nação (Moçambique). As nações (tribos) do norte têm, culturalmente, muito pouco em comum com as nações (tribos) do sul. Na altura da independência era preciso convencer pessoas que nunca tinham trabalhado juntas, que nunca tinham se considerado irmãs a desenvolver uma identidade comum, a se comprometerem com o projeto de construção nacional. E foi assim que declarámos guerra ao tribalismo, às diferenças e abraçamos a identidade comum vinculada pela língua portuguesa e pelo plano socialista.

Eu entendo as razões que levaram à guerra ao tribalismo. Entendo a necessidade politica da construção da identidade nacional. Entendo a necessidade do comprometimento com a ideia da união entre as pessoas do sul e do norte do país. Mais ainda, eu acho que estas razões são tão pertinentes hoje como eram em 1975 quando 97% da população nem sequer tinha uma língua em comum. Quando uma parte considerável da população acha que o caminho para a paz passa pela divisão do país em 2 é óbvio que há, ainda, uma necessidade urgente de se criar uma identidade nacional unificada. Eu só já não concordo que a maneira de criarmos esta identidade nacional unificada passa pela guerra ao tribalismo.

Está na hora de admitir que a guerra ao tribalismo falhou. Andamos há 40 anos a tentar convencer as pessoas a porem a identidade nacional acima da identidade tribal e nada. As pessoas continuam a ser Makhuwa e Shona antes de serem moçambicanas. Esta é a realidade.

E se nós mudássemos de estratégia? Em vez de continuarmos a demonizar as diferenças passássemos a celebrá-las, será que isso não iria levar a melhor entendimento entre as pessoas?

Eu acho que nós temos de mudar a nossa definição de identidade nacional para uma definição mais abrangente. Uma definição que admite e admira a realidade multicultural do nosso país e dos moçambicanos. Da mesma maneira que admitimos variedade religiosa temos de admitir variedade tribal. Um moçambicano cristão sabe explicar o islamismo da mesma maneira que um moçambicano muçulmano sabe explicar o cristianismo. Faz parte da nossa cultura aprender sobre todas as religiões e aceitar todas as religiões. No entanto, eu não faço a mínima ideia sobre como são os casamentos nas culturas do norte. E sei de pessoas do norte que elas não vêem com bons olhos o lobolo. Isto é, nós somos mais tolerantes e compreensivos no que toca à religião do que nas culturas “tribais”. Depois espantamo-nos com a situação em que vivemos, onde muita gente acha que as diferenças culturais são inultrapassáveis. A confiança mútua passa, necessariamente, pelo entendimento e pelo respeito. A guerra ao tribalismo diminui o entendimento e o respeito pelas diferenças culturais o que torna a confiança muito difícil.

A identidade cultural tem uma importância visceral para as pessoas. É como a terra em que nascemos. Quando alguém nos tenta roubar a terra nós reagimos com muita violência, estamos dispostos a morrer para defender o nosso direito à terra. É o mesmo com a identidade cultural. Se nós começarmos a reafirmar e a validar a identidade cultural dos moçambicanos e se permitirmos que essa identidade faça parte da identidade moçambicana vamos contribuir muito mais para a paz do que se continuarmos a tentar abafar as diversas culturas do país.

Temos de parar de tentar tapar o sol com a peneira. Temos de admitir que o tribalismo existe, que as diferenças culturais existem e que vão continuar a existir no futuro previsível. A única coisa que podemos fazer é transformar o tribalismo numa coisa positiva. Vamos fazer do tribalismo uma característica que nos une em vez de uma característica que nos divide. Vamos criar um Moçambique onde o Makonde comum consegue explicar o que é o xiguiane e o Bitonga comum consegue explicar o que é o mapiko. Vamos criar um Moçambique onde o Makonde sente orgulho no xiguiane e o Bitonga no mapiko, onde ambos sentem as duas tradições como “suas” na sua identidade moçambicana; mas onde nenhum deles sente que a identidade moçambicana ameaça a sua identidade tribal.

Nós criamos uma identidade moçambicana muito frágil. Uma identidade que se sente ameaçada quando se fala de qualquer diferença tribal. Criámos uma identidade moçambicana que não dá espaço às identidades tribais. Por isso basta uma das identidades tribais mostrar a cara para a identidade moçambicana se sentir ameaçada. Isto não é saudável para o país e não é saudável para nós, os moçambicanos.

I write what I like – Steve Biko

WE BLACKS

Born shortly before 1948, I have lived all my conscious life in the framework of institutionalised separate development. My friendships, my love, my education, my thinking and every other facet of my life have been carved and shaped within the context of separate development. In stages during my life I have managed to outgrow some of the things the system taught me. Hopefully what I propose to do now is to take a look at those who participate in opposition to the system—not from a detached point of view but from the point of view of a black man, conscious of the urgent need for an understanding of what is involved in the new approach—“black consciousness”.

One needs to understand the basics before setting up a remedy. A number of the organisations now currently “fighting against apartheid” are working on an oversimplified premise. They have taken a brief look at what is, and have diagnosed the problem incorrectly. They have almost completely forgotten about the side effects and have not even considered the root cause. Hence whatever is improvised as a remedy will hardly cure the condition.

Apartheid—both petty and grand—is obviously evil. Nothing can justify the arrogant assumption that a clique of foreigners has the right to decide on the lives of a majority. Hence even carried out faithfully and fairly the policy of apartheid would merit condemnation and vigorous opposition from the indigenous peoples as well as those who see the problem in its correct perspective. The fact that apartheid has been tied up with white supremacy, capitalist exploitation, and deliberate oppression makes the problem much more complex. Material want is bad enough, but coupled with spiritual poverty it kills. And this latter effect is probably the one that creates mountains of obstacles in the normal course of emancipation of the black people.

One should not waste time here dealing with manifestations of material want of the black people. A vast literature has been written on this problem. Possibly a little should be said about spiritual poverty. What makes the black man fail to tick? Is he convinced of his own accord of his inabilities? Does he lack in his genetic make-up that rare quality that makes a man willing to die for the realisation of his aspirations? Or is he simply a defeated person? The answer to this is not a clearcut one. It is, however, nearer to the last suggestion than anything else. The logic behind white domination is to prepare the black man for the subservient role in this country. Not so long ago this used to be freely said in parliament even about the educational system of the black people. It is still said even today, although in a much more sophisticated language. To a large extent the evil-doers have succeeded in producing at the output end of their machine a kind of black man who is man only in form. This is the extent to which the process of dehumanisation has advanced.

Black people under the Smuts government were oppressed but they were still men. They failed to change the system for many reasons which we shall not consider here. But the type of black man we have today has lost his manhood. Reduced to an obliging shell, he looks with awe at the white power structure and accepts what he regards as the “inevitable position”. Deep inside his anger mounts at the accumulating insult, but he vents it in the wrong direction—on his fellow man in the township, on the property of black people. No longer does he trust leadership, for the 1963 mass arrests were blameable on bungling by the leadership, nor is there any to trust. In the privacy of his toilet his face twists in silent condemnation of white society but brightens up in sheepish obedience as he comes out hurrying in response to his master’s impatient call. In the home-bound bus or train he joins the chorus that roundly condemns the white man but is first to praise the government in the presence of the police or his employers. His heart yearns for the comfort of white society and makes him blame himself for not having been “educated” enough to warrant such luxury. Celebrated achievements by whites in the field of science—which he understands only hazily—serve to make him rather convinced of the futility of resistance and to throw away any hopes that change may ever come. All in all the black man has become a shell, a shadow of man, completely defeated, drowning in his own misery, a slave, an ox bearing the yoke of oppression with sheepish timidity.

This is the first truth, bitter as it may seem, that we have to acknowledge before we can start on any programme designed to change the status quo. It becomes more necessary to see the truth as it is if you realise that the only vehicle for change are these people who have lost their personality. The first step therefore is to make the black man come to himself; to pump back life into his empty shell; to infuse him with pride and dignity, to remind him of his complicity in the crime of allowing himself to be misused and therefore letting evil reign supreme in the country of his birth. This is what we mean by an inward-looking process. This is the definition of “Black Consciousness”.

One writer makes the point that in an effort to destroy completely the structures that had been built up in the African Society and to impose their imperialism with an unnerving totality the colonialists were not satisfied merely with holding a people in their grip and emptying the Native’s brain of all form and content, they turned to the past of the oppressed people and distorted, disfigured and destroyed it. No longer was reference made to African culture, it became barbarism. Africa was the “dark continent”. Religious practices and customs were referred to as superstition. The history of African Society was reduced to tribal battles and internecine wars. There was no conscious migration by the people from one place of abode to another. No, it was always flight from one tyrant who wanted to defeat the tribe not for any positive reason but merely to wipe them out of the face of this earth.

No wonder the African child learns to hate his heritage in his days at school. So negative is the image presented to him that he tends to find solace only in close identification with the white society.

No doubt, therefore, part of the approach envisaged in bringing about “black consciousness” has to be directed to the past, to seek to rewrite the history of the black man and to produce in it the heroes who form the core of the African background. To the extent that a vast literature about Gandhi in South Africa is accumulating it can be said that the Indian community already has started in this direction. But only scant reference is made to African heroes. A people without a positive history is like a vehicle without an engine. Their emotions cannot be easily controlled and channelled in a recognisable direction. They always live in the shadow of a more successful society. Hence in a country like ours they are forced to celebrate holidays like Paul Kruger’s day. Heroes’ day, Republic day etc.,—all of which are occasions during which the humiliation of defeat is at once revived.

Then too one can extract from our indigenous cultures a lot of positive virtues which should teach the Westerner a lesson or two. The oneness of community for instance is at the heart of our culture. The easiness with which Africans communicate with each other is not forced by authority but is inherent in the make-up of African people. Thus whereas the white family can stay in an area without knowing its neighbours, Africans develop a sense of belonging to the community within a short time of coming together. Many a hospital official has been confounded by the practice of Indians who bring gifts and presents to patients whose names they can hardly recall. Again this is a manifestation of the interrelationship between man and man in the black world as opposed to the highly impersonal world in which Whitey lives. These are characteristics we must not allow ourselves to lose. Their value can only be appreciated by those of us who have not as yet been made slaves to technology and the machine. One can quote a myriad of other examples. Here again “black consciousness” seeks to show the black people the value of their own standards and outlook. It urges black people to judge themselves according to these standards and not to be fooled by white society who have white-washed themselves and made white standards the yardstick by which even black people judge each other.

It is probably necessary at this stage to warn all and sundry about the limits of endurance of the human mind. This is particularly necessary in the case of the African people. Ground for a revolution is always fertile in the presence of absolute destitution. At some stage one can foresee a situation where black people will feel they have nothing to live for and will shout unto their God “Thy will be done.” Indeed His will shall be done but it shall not appeal equally to all mortals for indeed we have different versions of His will. If the white God has been doing the talking all along, at some stage the black God will have to raise His voice and make Himself heard over and above noises from His counterpart. What happens at that stage depends largely on what happens in the intervening period. “Black consciousness” therefore seeks to give positivity in the outlook of the black people to their problems. It works on the knowledge that “white hatred” is negative, though understandable, and leads to precipitate and shot-gun methods which may be disastrous for black and white alike. It seeks to channel the pent-up forces of the angry black masses to meaningful and directional opposition basing its entire struggle on realities of the situation. It wants to ensure a singularity of purpose in the minds of the black people and to make possible total involvement of the masses in a struggle essentially theirs.

What of the white man’s religion—Christianity? It seems the people involved in imparting Christianity to the black people steadfastly refuse to get rid of the rotten foundation which many of the missionaries created when they came. To this date black people find no message for them in the Bible simply because our ministers are still top busy with moral trivialities. They blow these up as the most important things that Jesus had to say to people. They constantly urge the people to find fault in themselves and by so doing detract from the essence of the struggle in which the people are involved. Deprived of spiritual content, the black people read the bible with a gullibility that is shocking. While they sing in a chorus of “mea culpa” they are joined by white groups who sing a different version—“tua culpa”. The anachronism of a well-meaning God who allows people to suffer continually under an obviously immoral system is not lost to young blacks who continue to drop out of Church by the hundreds. Too many people are involved in religion for the blacks to ignore. Obviously the only path open for us now is to redefine the message in the bible and to make it relevant to the struggling masses. The bible must not be seen to preach that all authority is divinely instituted. It must rather preach that it is a sin to allow oneself to be oppressed. The bible must continually be shown to have something to say to the black man to keep him going in his long journey towards realisation of the self. This is the message implicit in “black theology”. Black theology seeks to do away with spiritual poverty of the black people. It seeks to demonstrate the absurdity of the assumption by whites that “ancestor worship” was necessarily a superstition and that Christianity is a scientific religion. While basing itself on the Christian message, black theology seeks to show that Christianity is an adaptable religion that fits in with the cultural situation of the people to whom it is imparted. Black theology seeks to depict Jesus as a fighting God who saw the exchange of Roman money—the oppressor’s coinage—in His father’s temple as so sacrilegious that it merited a violent reaction from Him—the Son of Man.

Thus in all fields “Black Consciousness” seeks to talk to the black man in a language that is his own. It is only by recognising the basic set-up in the black world that one will come to realise the urgent need for a re-awakening of the sleeping masses. Black consciousness seeks to do this. Needless to say it shall have to be the black people themselves who shall take care of this programme for indeed Sekou Toure was right when he said:

To take part in the African revolution, it is not enough to write a revolutionary song; you must fashion the revolution with the people. And if you fashion it with the people, the songs will come by themselves and of themselves.

In order to achieve real action you must yourself be a living part of Africa and of her thought; you must be an element of that popular energy which is entirely called forth for the freeing, the progress and the happiness of Africa. There is no place outside that fight for the artist or for the intellectual who is not himself concerned with, and completely at one with the people in the great battle of Africa and of suffering humanity.

Frank Talk

 

I write what I like – Steve Biko

BLACK SOULS IN WHITE SKINS?

Basically the South African white community is a homogeneous community. It is a community of people who sit to enjoy a privileged position that they do not deserve, are aware of this, and therefore spend their time trying to justify why they are doing so. Where differences in political opinion exist, they are in the process of trying to justify their position of privilege and their usurpation of power. With their theory of “separate freedoms for the various nations in the multinational state of South Africa” the Nationalists have gone a long way towards giving most of white South Africa some sort of moral explanation for what is happening. Everyone is quite content to point out that these people—meaning the blacks—will be free when they are ready to run their own affairs in their own areas. What more could they possibly hope for?

But these are not the people we are concerned with. We are concerned with that curious bunch of nonconformists who explain their participation in negative terms: that bunch of do-gooders that goes under all sorts of names—liberals, leftists etc. These are the people who argue that they are not responsible for white racism and the country’s “inhumanity to the black man”. These are the people who claim that they too feel the oppression just as acutely as the blacks and therefore should be jointly involved in the black man’s struggle for a place under the sun. In short, these are the people who say that they have black souls wrapped up in white skins.

The role of the white liberal in the black man’s history in South Africa is a curious one. Very few black organisations were not under white direction. True to their image, the white liberals always knew what was good for the blacks and told them so. The wonder of it all is that the black people have believed in them for so long. It was only at the end of the 50s that the blacks started demanding to be their own guardians.

Nowhere is the arrogance of the liberal ideology demonstrated so well as in their insistence that the problems of the country can only be solved by a bilateral approach involving both black and white. This has, by and large, come to be taken in all seriousness as the modus operandi in South Africa by all those who claim they would like a change in the status quo. Hence the multiracial political organisations and parties and the “nonracial” student organisations, all of which insist on integration not only as an end goal but also as a means.

The integration they talk about is first of all artificial in that it is a response to conscious manoeuvre rather than to the dictates of the inner soul. In other words the people forming the integrated complex have been extracted from various segregated societies with their inbuilt complexes of superiority and inferiority and these continue to manifest themselves even in the “nonracial” set-up of the integrated complex. As a result the integration so achieved is a one-way course, with the whites doing all the talking and the blacks the listening. Let me hasten to say that I am not claiming that segregation is necessarily the natural order; however, given the facts of the situation where a group experiences privilege at the expense of others, then it becomes obvious that a hastily arranged integration cannot be the solution to the problem. It is rather like expecting the slave to work together with the slave-master’s son to remove all the conditions leading to the former’s enslavement.

Secondly, this type of integration as a means is almost always unproductive. The participants waste lots of time in an internal sort of mudslinging designed to prove that A is more of a liberal than B. In other words the lack of common ground for solid identification is all the time manifested in internal strifes inside the group.

It will not sound anachronistic to anybody genuinely interested in real integration to learn that blacks are asserting themselves in a society where they are being treated as perpetual under-16s. One does not need to plan for or actively encourage real integration. Once the various groups within a given community have asserted themselves to the point that mutual respect has to be shown then you have the ingredients for a true and meaningful integration. At the heart of true integration is the provision for each man, each group to rise and attain the envisioned self. Each group must be able to attain its style of existence without encroaching on or being thwarted by another. Out of this mutual respect for each other and complete freedom of self-determination there will obviously arise a genuine fusion of the life-styles of the various groups. This is true integration.

From this it becomes clear that as long as blacks are suffering from inferiority complex—a result of 300 years of deliberate oppression, denigration and derision—they will be useless as co-architects of a normal society where man is nothing else but man for his own sake. Hence what is necessary as a prelude to anything else that may come is a very strong grass-roots build-up of black consciousness such that blacks can learn to assert themselves and stake their rightful claim.

Thus in adopting the line of a nonracial approach, the liberals are playing their old game. They are claiming a “monopoly on intelligence and moral judgement” and setting the pattern and pace for the realisation of the black man’s aspirations. They want to remain in good books with both the black and white worlds. They want to shy away from all forms of “extremisms”, condemning “white supremacy” as being just as bad as “Black Power!”. They vacillate between the two worlds, verbalising all the complaints of the blacks beautifully while skilfully extracting what suits them from the exclusive pool of white privileges. But ask them for a moment to give a concrete meaningful programme that they intend adopting, then you will see on whose side they really are. Their protests are directed at and appeal to white conscience, everything they do is directed at finally convincing the white electorate that the black man is also a man and that at some future date he should be given a place at the white man’s table.

The myth of integration as propounded under the banner of liberal ideology must be cracked and killed because it makes people believe that something is being done when in actual fact the artificial integrated circles are a soporific on the blacks and provide a vague satisfaction for the guilty-stricken whites. It works on a false premise that because it is difficult to bring people from different races together in this country, therefore achievement of this is in itself a step forward towards the total liberation of the blacks. Nothing could be more irrelevant and therefore misleading. Those who believe in it are living in a fool’s paradise.

First the black-white circles are almost always a creation of white liberals. As a testimony to their claim of complete identification with the blacks, they call a few “intelligent and articulate” blacks to “come around for tea at home”, where all present ask each other the same old hackneyed question “how can we bring about change in South Africa?” The more such tea-parties one calls the more of a liberal he is and the freer he shall feel from the guilt that harnesses and binds his conscience. Hence he moves around his white circles— whites-only hotels, beaches, restaurants and cinemas—with a lighter load, feeling that he is not like the rest of the others. Yet at the back of his mind is a constant reminder that he is quite comfortable as things stand and therefore should not bother about change. Although he does not vote for the Nats (now that they are in the majority anyway), he feels quite secure under the protection offered by the Nats and subconsciously shuns the idea of a change. This is what demarcates the liberal from the black world. The liberals view the oppression of blacks as a problem that has to be solved, an eye sore spoiling an otherwise beautiful view. From time to time the liberals make themselves forget about the problem or take their eyes off the eyesore. On the other hand, in oppression the blacks are experiencing a situation from which they are unable to escape at any given moment. Theirs is a struggle to get out of the situation and not merely to solve a peripheral problem as in the case of the liberals. This is why blacks speak with a greater sense of urgency than whites.

A game at which the liberals have become masters is that of deliberate evasiveness. The question often comes up “what can I do?”. If you ask him to do something like stopping to use segregated facilities or dropping out of varsity to work at menial jobs like all blacks or defying and denouncing all provisions that make him privileged, you always get the answer—“but that’s unrealistic!”. While this may be true, it only serves to illustrate the fact that no matter what a white man does, the colour of his skin—his passport to privilege—will always put him miles ahead of the black man. Thus in the ultimate analysis no white person can escape being part of the oppressor camp.

“There exists among men, because they are men, a solidarity through which each shares responsibility for every injustice and every wrong committed in the world, and especially for crimes that are committed in his presence or of which he cannot be ignorant”.

This description of “metaphysical guilt” explains adequately that white racism “is only possible because whites are indifferent to suffering and patient with cruelty” meted out to the black man. Instead of involving themselves in an all-out attempt to stamp out racism from their white society, liberals waste lots of time trying to prove to as many blacks as they can find that they are liberal. This arises out of the false belief that we are faced with a black problem. There is nothing the matter with blacks. The problem is WHITE RACISM and it rests squarely on the laps of the white society. The sooner the liberals realise this the better for us blacks. Their presence amongst us is irksome and of nuisance value. It removes the focus of attention from essentials and shifts it to ill-defined philosophical concepts that are both irrelevant to the black man and merely a red herring across the track. White liberals must leave blacks to take care of their own business while they concern themselves with the real evil in our society—white racism.

Secondly, the black-white mixed circles are static circles with neither direction nor programme. The same questions are asked and the same naiveté exhibited in answering them. The real concern of the group is to keep the group going rather than being useful. In this sort of set-up one sees a perfect example of what oppression has done to the blacks. They have been made to feel inferior for so long that for them it is comforting to drink tea, wine or beer with whites who seem to treat them as equals. This serves to boost up their own ego to the extent of making them feel slightly superior to those blacks who do not get similar treatment from whites. These are the sort of blacks who are a danger to the community.

Instead of directing themselves at their black brothers and looking at their common problems from a common platform they choose to sing out their lamentations to an apparently sympathetic audience that has become proficient in saying the chorus of “shame?”. These dull-witted, self-centred blacks are in the ultimate analysis as guilty of the arrest of progress as their white friends for it is from such groups that the theory of gradualism emanates and this is what keeps the blacks confused and always hoping that one day God will step down from heaven to solve their problems. It is people from such groups who keep on scanning the papers daily to detect any sign of the change they patiently await without working for. When Helen Suzman’s majority is increased by a couple of thousands, this is regarded as a major milestone in the “inevitable change”. Nobody looks at the other side of the coin—the large-scale removals of Africans from the urban areas or the impending zoning of places like Grey Street in Durban and a myriad of other manifestations of change for the worse.

Does this mean that I am against integration? If by integration you understand a breakthrough into white society by blacks, an assimilation and acceptance of blacks into an already established set of norms and code of behaviour set up by and maintained by whites, then YES I am against it. I am against the superior-inferior whiteblack stratification that makes the white a perpetual teacherand the black a perpetual pupil (and a poor one at that). I am against the intellectual arrogance of white people that makes them believe that white leadership is a sine qua non in this country and that whites are the divinely appointed pace-setters in progress. I am against the fact that a settler minority should impose an entire system of values on an indigenous people.

If on the other hand by integration you mean there shall be free participation by all members of a society, catering for the full expression of the self in a freely changing society as determined by the will of the people, then I am with you. For one cannot escape the fact that the culture shared by the majority group in any given society must ultimately determine the broad direction taken by the joint culture of that society. This need not cramp the style of those who feel differently but on the whole, a country in Africa, in which the majority of the people are African must inevitably exhibit African values and be truly African in style.

What of the claim that the blacks are becoming racists? This is a favourite pastime of frustrated liberals who feel their trusteeship [Page 25 ] ground being washed off from under their feet. These self-appointed trustees of black interests boast of years of experience in their fight for the ‘rights of the blacks’. They have been doing things for blacks, on behalf of blacks, and because of blacks. When the blacks announce that the time has come for them to do things for themselves and all by themselves all white liberals shout blue murder!

“Hey, you can’t do that. You’re being a racist. You’re falling into their trap.”

Apparently it’s alright with the liberals as long as you remain caught by their trap.

Those who know, define racism as discrimination by a group against another for the purposes of subjugation or maintaining subjugation. In other words one cannot be a racist unless he has the power to subjugate. What blacks are doing is merely to respond to a situation in which they find themselves the objects of white racism. We are in the position in which we are because of our skin. We are collectively segregated against—what can be more logical than for us to respond as a group? When workers come together under the auspices of a trade union to strive for the betterment of their conditions, nobody expresses surprise in the Western world. It is the done thing. Nobody accuses them of separatist tendencies. Teachers fight their battles, garbagemen do the same, nobody acts as a trustee for another. Somehow, however, when blacks want to do their thing the liberal establishment seems to detect an anomaly. This is in fact a counter-anomaly. The anomaly was there in the first instance when the liberals were presumptuous enough to think that it behoved them to fight the battle for the blacks.

The liberal must understand that the days of the Noble Savage are gone; that the blacks do not need a go-between in this struggle for their own emancipation. No true liberal should feel any resentment at the growth of black consciousness. Rather, all true liberals should realise that the place for their fight for justice is within their white society. The liberals must realise that they themselves are oppressed if they are true liberals and therefore they must fight for their own freedom and not that of the nebulous “they” with whom they can hardly claim identification. The liberal must apply himself with absolute dedication to the idea of educating his white brothers that the history of the country may have to be rewritten at some stage and that we may live in “a country where colour will not serve to put a man in a box”. The blacks have heard enough of this. In other words, the liberal must serve as a lubricating material so that as we change the gears in trying to find a better direction for South Africa, there should be no grinding noises of metal against metal but a free and easy flowing movement which will be characteristic of a well-looked-after vehicle.

Frank Talk