O problema não são as saias. As saias são só um sintoma do problema. Este não é o momento certo para ficar calado.

Há uma escola nos movimentos de justiça social que diz que chega a uma certa altura em que as pessoas que pertencem ao grupo privilegiado devem se calar e escutar as pessoas que pertencem ao grupo oprimido. Este não é um desses momentos. Se as saias fossem realmente o problema, então sim, eu diria que os homens deveriam ouvir mais que falar. Mas o tamanho das saias não é o verdadeiro problema, é apenas um sintoma do mesmo.

O Ministério da Educação não decidiu regulamentar o comprimento das saias por razões de padronização ou de estabelecimento de regras claras sobre o uniforme escolar. Se tivessem sido estes os motivos a decisão não teria sido tão alarmante, grupos progressistas poderiam ainda argumentar que o MINEDH estaria a legitimar ideia de que a imagem da mulher deve ser regulamentada, mas essa conversa teria os seus nuances. Não foi isto que aconteceu. O MINEDH tomou a decisão de regular o comprimento das saias porque o mesmo estava a atrapalhar os professores e alunos do sexo masculino e a contribuir para ocorrências de assédio sexual nas escolas. Não há nenhuma nuance nesta maneira de apresentar o problema. Esta medida tem muito pouco a ver com o estabelecimento de regras e tudo a ver com a maneira como nós, como sociedade, encaramos as mulheres.

Para poupar tempo vamos começar com concordar nos seguintes aspectos. Primeiro, os estabelecimentos de ensino têm o direito de padronizar o uniforme escolar e de exigir que os alunos sigam as regras para o mesmo. Segundo, nem todas as roupas são adequadas para todos os ambientes. Por exemplo, um biquíni é roupa adequada para ser usada na praia ou na piscina, mas não na igreja. Tendo isto em conta não é descabido que se diga que certas saias não são a roupa adequada ao ambiente escolar.

Assim não vamos nos ocupar a conversar sobre regras e sobre desfiles de moda nas escolas. Vamos falar doutros aspectos à volta deste assunto. A Lara Fraga já escreveu sobre a problemática da sexualização do corpo da mulher e do facto que este é considerado propriedade pública. O Boaventura Monjane falou sobre como a cultura machista influencia como nós temos estado a abordar este assunto. Convido-vos a lerem o que eles escreveram e a refletirem sobre os aspectos que eles abordaram.

O meu objetivo hoje é mais prático que teórico. O que eu quero é pedir, na verdade implorar, que toda a gente que sente pelo menos uma gotinha de indignação sobre este assunto expresse essa indignação. Principalmente os homens, este é um pedido dirigido aos homens: falem!

Nas próximas duas semanas até ao dia 7 de Abril (Dia da Mulher Moçambicana), usem um bocadinho do vosso tempo e contribuam para a emancipação da mesma de maneira activa: falem!

Se és feminista, meio-feminista, mau-feminista. Fala!

Se gostas do feminismo, mas não das feminazis. Fala!

Se não gostas do feminismo, preferes o humanismo ou o egalitarismo. Fala!

Se nunca pensaste no feminismo e não tens opinião sobre isso; mas acreditas que as mulheres são seres humanos iguais aos homens e que a sociedade lhes deve os mesmos direitos. Fala!

Se achas que a ideia de que as saias atrapalham os homens é ofensiva para ti como homem, afinal tu tens capacidade de te controlares. Fala! Conta-nos como tu não deixas de ser responsável pelas tuas acções devido a uma saia curta numa mulher.

Se achas que estamos a passar a mensagem errada para o teu filho. Que ele vai crescer a incorporar que o cabelo vistoso da colega é uma desculpa aceitável para não prestar atenção na sala de aulas. Fala!

Se achas que a ideia de que pernas de crianças excitam sexualmente adultos a quem a gente confia as mesmas crianças, os professores, é assustadora. Fala!

Se achas que a nossa sociedade é mais perigosa para as mulheres devido a atitudes e crenças de todos nós. Fala!

Conta-nos porquê tu achas que a sociedade é perigosa para as mulheres. Fala!

Se achas que isso de direitos iguais é muito bom, mas que devemos também ensinar as meninas a se precaverem para não serem atacadas. Fala!

Se te assusta que alguém vai pensar nas mulheres que tu amas, a tua mãe, as tuas irmãs, as tuas filhas, as tuas amigas, da maneira que estes homens obviamente pensam sobre estas meninas anónimas. Fala!

Conta-nos como estas mulheres que tu amas não são “putinhas” só porque usam saia acima do joelho. Conta-nos como te assusta pensar que o machismo moçambicano significa que as mulheres que tu amas podem ser assediadas a qualquer momento que saem de casa. Fala!

Se achas que saias demasiado curtas não pertencem nas escolas mas que saias até aos pés são uma patetice. Fala!

Se não te preocupa a medida do MINEDH, mas preocupa-te a maneira como o assunto está a ser debatido na esfera pública. Fala!

Se concordas em absoluto com o MINEDH e achas que as meninas que usam saias acima do joelho são “putinhas”, mas defendes o direito à livre manifestação garantido na constituição. Fala!

Se “foste Charlie” apesar de não gostares dos desenhos deles; se defendeste o Eric Charas apesar de não gostares das posições que ele toma; se não queres que o governo assassine o Dlhakama; se sempre foste a favor do direito de manifestar apesar de não concordares com os manifestantes. Sê coerente! Fala!

Se estás a pensar duas vezes antes de falar porque sabes que outros homens, e mulheres, vão mudar a opinião deles em relação a ti. Fala! É teu dever moral e ético falar. De que nos vale os nossos princípios morais teóricos se na hora do vamos ver acobardamo-nos? Lembra-te que as pessoas que vão pensar menos de ti por falares a favor dos direitos das mulheres pensam menos de todas as mulheres. De que lado é que tu queres estar?

Se achas que falar não vai resolver nada. Fala na mesma. Pelo menos deixaste claro que não concordas com esta situação. Nunca calar é parte da nossa história. Se nós tivéssemos pensado assim como país não tínhamos ajudado os povos do Zimbabué e da África do Sul a lutarem contra governos de minoria branca. Fala!

Lembra-te que as consequências negativas para ti vão se resumir a alguém pensar mal de ti. As consequências negativas para as mulheres que estão a falar vão muito para além de alguém pensar mal delas, isso é o status quo – afinal estamos a falar das “putinhas” das nossas alunas. Fala!

Se a teoria é o feminismo. Se a teoria é que somos todos iguais. A prática é lutarmos juntos para uma sociedade que nos trata a todos como iguais. A forma de luta mais fácil é esta que eu te estou a pedir: FALA! Meu irmão, fala!

Eu não quero flores para o dia 7 de Abril. Não quero poemas que digam como a mulher moçambicana é bonita, trabalhadora e corajosa. A única coisa que eu quero para o dia 7 de Abril é que tu, meu irmão moçambicano, te juntes à nossa luta por uma sociedade que trata a mulher como um ser humano igual ao homem.

 

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One thought on “O problema não são as saias. As saias são só um sintoma do problema. Este não é o momento certo para ficar calado.

  1. Minha senhora faça um texto igual em relação ao conflito entre o governo e a renamo pois este sim esta a matar tanto os homens como as mulheres. Este assunto devia ser a prioridade de todos os mocambicanos. Lembre se há mulheres neste país que né saia curta né cumprida tem. As mulheres que estao nas cidades bem protegidas é que pensam nesse assunto as outras estao a pensar em como escapar as balas do governo e da renamo. Mais nao disse.

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