Zika – história

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No último trimestre do ano passado o Brasil soou o alarme para um aumento nos casos de microcefalia em recém nascidos. Microcefalia é o nome que se dá quando uma criança nasce com a cabeça mais pequena do que é esperado para o tamanho. O grau de gravidade desta doença depende de quão mais pequena é a cabeça comparada ao normal. Algumas pessoas com microcefalia vivem uma vida normal e até têm curso superior. Mas, em geral, as pessoas com microcefalia têm pelo menos alguns problemas de aprendizagem e muitas morrem ainda bebés. Logo, este aumento nos números de bebés a nascer com microcefalia deixou as autoridades sanitárias brasileiras muito preocupadas.
A primeira pergunta foi: o que está a causar este aumento nos números?
Existem vários indícios que apontam para a infecção com o vírus Zika como a causa da microcefalia em recém nascidos. Eu vou discutir este assunto daqui a uns dias. Hoje eu queria começar por contar a história do vírus Zika.

Normalmente eu diria que a história que vou contar é uma versão abreviada dos factos. Neste caso não é. Existe tão pouca informação sobre o vírus Zika que não é preciso abreviar nada. Dá para falar de todos os artigos científicos desde que foi descoberto o vírus sem cansar ninguém.

Nos anos 40 dois cientistas estavam a tentar isolar um outro vírus no Uganda, o vírus da Febre Amarela. Eles sabiam que a doença era causada por um vírus, mas precisavam de uma amostra do próprio vírus para poder estudá-lo. Então eles construíram uma torre na floresta Zika com plataformas a várias alturas. Em cada plataforma tinha uma jaula com um macaco a viver dentro. O objectivo era monitorar os macacos até um deles ficar doente e depois isolar o agente causador da doença. As plataformas estavam a várias alturas porque vectores (insetos que transmitem as doenças) vivem a várias alturas. Assim se o macaco da altura A ficasse doente, mas não o da altura B eles tinham uma ideia de que espécie de mosquito é que estava a transmitir a doença.

No dia 18 de Abril de 1947 o macaco 766 ficou com febre. Três dias depois os cientistas tiraram sangue deste macaco e infetaram ratinhos. Estes ratinhos ficaram doentes e os cientistas isolaram o “agente causador da doença”. Em Janeiro do ano seguinte os mesmos cientistas colheram mosquitos nas mesmas plataformas, infetaram ratinhos e isolaram o mesmo agente que tinha causado doença no macaco 766. A partir daí o agente causador passa a chamar-se vírus Zika, por ter sido descoberto na floresta Zika.

Os cientistas continuaram a trabalhar com o vírus no Uganda. Uma das primeiras perguntas que eles investigaram foi: o vírus Zika é capaz de infectar que animais? Infecções em vários pequenos mamíferos mostrou que o vírus pode infectar macacos, coelhos, ratinhos da Índia; mas apenas causa lesões em ratinhos de laboratório. Apenas 6 de 99 pessoas de vários lugares no Uganda testaram positivo para anticorpos contra o vírus Zika.

Em 1964 um médico na Nigéria reporta casos de Dengue atípicos (com sintomas que não batem 100% com uma infecção por Dengue), com sintomas menos severos mas com envolvimento do fígado. Este médico acredita que está perante os primeiros casos de doença causada pelo vírus Zika em humanos. Mais tarde um outro cientista contestou que o vírus causador destes casos não era o Zika, mas sim outro. Apenas um destes pacientes, uma menina de 10 anos tinha anticorpos contra o vírus Zika, e ela não tinha sintomas que envolvessem o fígado.

Em 1964 um acidente de laboratório leva à infecção de um cientista com o vírus Zika. Pela primeira vez (este é apenas o segundo caso confirmado de Zika em humanos) é reportada uma erupção cutânea (irritação na pele, que fica vermelha) como sintoma da infecção. O cientista infetou ratinhos de laboratório com o seu sangue e confirmou que realmente o que lhe estava a causar a doença era o vírus Zika. Na altura ele comentou que não era de espantar que o vírus nunca tinha sido isolado de humanos já que os sintomas da infecção eram muito suaves.

Em 1973 há um outro acidente de laboratório, desta vez em Moçambique, e mais um cientista fica infectado com o vírus Zika. A doença tem sintomas leves e dura uma semana.

Durante as décadas de 70 e 80 vários países começam a reportar presença de anticorpos contra o vírus Zika em pessoas e macacos. Mas há poucos casos de doença activa em pessoas, apenas um ou outro na Nigéria e na Indonésia.

E depois há silencio absoluto sobre o vírus Zika até 2007 quando médicos na ilha Yap da Micronésia começam a reportar casos de Dengue com sintomas leves/suaves mas com erupção cutânea. Análises laboratoriais mostraram que eram, na verdade, casos de infecção com o vírus Zika. Testes mostraram que 74% da população da ilha tinha anticorpos contra o vírus e os cientistas acreditam que 5 000 pessoas foram infetadas durante esse surto; das quais 900 tiveram alguns sintomas e nenhuma precisou de baixar no hospital. Um dado surpreendente deste surto é que nenhum mosquito foi encontrado com o vírus.

Depois houveram alguns casos isolados de viajantes para terras endémicas. Nos EUA foi reportado o primeiro caso transmitido por via sexual.

Em 2013 a Polinésia Francesa tem um surto com 333 casos confirmados e 19 000 casos suspeitos. Pela primeira vez são reportados sintomas sérios, principalmente neurológicos como Guillian-Barré (pode causar paralisia temporária e às vezes morte). Pela primeira vez dois bebés estão infetados à nascença, não é claro se a infecção acontece dentro do útero ou durante o trabalho de parto. De qualquer maneira os dois bebés não têm nenhuma anomalia duradoira.

Mais alguns casos de Zika adquirido durante viagens.

Em Março de 2015 médicos no nordeste do Brasil, no meio de um surto de Dengue (que dura até hoje), começam a reportar casos atípicos; com sintomas mais leves e que testavam negativo para anticorpos contra Dengue. Isto leva os pesquisadores brasileiros a suspeitarem do vírus Zika. Estes casos são confirmados como infecções por Zika em Maio de 2015. É dado um alerta pelas autoridades sanitárias para os médicos ficarem atentos a sintomas neurológicos da infecção por Zika, como os que tinham sido reportados na Polinésia Francesa. Em Agosto, 5 meses depois do primeiro alerta para um Dengue estranho, começam a nascer mais crianças com microcefalia do que o normal. Em pouco tempo os obstetras brasileiros avisam que há um surto de microcefalia na região.

Nos próximos dias eu vou explicar:
1) a progressão do surto no Brasil
2) as pistas de que a infecção leva à microcefalia
3) as pistas de que a infecção leva ao Guillian-Barré
4) as consequências para Moçambique

Se quiserem podem deixar sugestões nos comentários de mais alguma pergunta relacionada que queiram que eu aborde.

Um mapa da expansão do vírus pode ser encontrado aqui.

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