O portugês é língua madrasta… que veio de barco.

Em 2008 eu fui viver para a Inglaterra. Naquela altura a internet não era tão fácil como hoje. Não havia WhatsApp, ou pelo menos nós ainda não usávamos muito, nem sequer era normal ter net no celular. Então, ainda não havia a facilidade de comunicação que há hoje. Durante esse ano eu fiquei semanas sem falar com ninguém em português, sem nem sequer ouvir português. Um dia ouvi umas pessoas a falar português e quis falar com elas e aconteceu-me uma coisa super estranha. Não conseguia me lembrar das palavras em português, pura e simplesmente não me saiam as palavras. Quando finalmente consegui me lembrar de algumas palavras saiu tudo com sotaque inglês. Como foi estranho ouvir-me a mim mesma falar português com sotaque inglês. Nunca esqueci a sensação desse dia e jurei para mim mesma que não ia deixar isso acontecer outra vez. Havia de arranjar maneira de falar em português onde quer que fosse.

O português é a minha língua materna. É a língua onde eu melhor expresso as minhas emoções. É a língua onde me é mais fácil contar e fazer matemática. É a língua onde eu me sinto em casa. Eu gosto da língua portuguesa, eu gosto de falar português, eu gosto de ouvir português. Quando eu ouço alguém a falar português fora de Moçambique é muito difícil resistir a tentação de puxar conversa com essa pessoa. E assim vou conhecendo estranhos com quem única coisa que tenho em comum é a língua.

Eu falo inglês desde os 6 anos. Todos os testes de proficiência linguística que já fiz dizem que o inglês é para mim como uma língua nativa. Isto é, uma verdadeira segunda língua. No entanto, eu posso afirmar sem nenhuma sombra de dúvida que o português é e vai continuar a ser a língua com a qual eu mais me identifico. Até a minha maneira de contar histórias é baseada na língua portuguesa. Em inglês as histórias são lineares, tem um principio, um meio e um fim. Um passo segue o outro e não há distrações. Em português as histórias têm pequenas historinhas secundarias que a gente vai contando que não são necessárias para a história principal mas que têm um propósito na nossa maneira de contar histórias. Por exemplo, eu acabei aqui neste parágrafo de contar uma história secundaria ao meu texto principal. Quando eu penso na melhor maneira de construir um argumento eu sempre penso nas histórias secundarias que vão enriquecer o mesmo. Isto é porque para mim a argumentação é melhor em português, apesar de eu ter aprendido a debater formalmente em inglês.

Eu acho a língua portuguesa extremamente bonita. Ela é complexa o suficiente para permitir nuances que no inglês são mais difíceis de conseguir. No entanto as regras gramaticais são lógicas e elegantes. O português tem uma história rica e interessante. É uma língua adaptável e que incorpora várias culturas sem perder a sua identidade. É uma língua maleável e divertida, sempre adorei que ladra, ladroa e ladrona são todas maneiras aceitáveis de escrever o feminino de ladrão.

Eu não sou muito de purismos. O meu amor pela língua portuguesa não vai diminuir se parar de escrever o p em óptimo ou o c em facto. Se eu vivi a vida toda a saber a diferença entre meia (do pé) e meia (de metade); e a diferença entre manga (da camisa) e manga (a fruta), também vou conseguir distinguir entre cágado e cagado mesmo que o acento vá à vida. Mas não quero com isto fazer pouco da afeição à grafia corrente que as pessoas sentem. Apenas dizer que a minha afeição à língua não se baseia nesses pormenores. Também não me importo muito com certos hábitos linguísticos que gramaticalmente estão errados. Para mim está tudo bem quando a gente em Moçambique responde a uma pergunta com a palavra “ainda” (o correto seria “ainda não”). Por outro lado acho que em ambientes profissionais devemos nos esmerar por falar e escrever de acordo com as normas, pelo menos as locais. Faz-me confusão lêr jornais com erros ortográficos e gramaticais gritantes. Esta cultura que se está a instalar em Moçambique onde não há cuidado com a escrita correcta preocupa-me.

Eu reconheço a afeição que tenho com a língua portuguesa. Percebo que eu também tenho, às vezes, opiniões fortes sobre como se deve falar e escrever. É por isso que eu dou tanto valor às línguas maternas dos outros. Nós temos um vinculo muito forte com a nossa língua materna. Este é um assunto sério.

A língua portuguesa é a língua oficial em Moçambique. Como língua oficial tem privilégios que as outras línguas nacionais não têm. Toda a vida formal em Moçambique é feita em português. Todas as leis estão escritas em português. É a lógica da língua portuguesa que dita o pensamento lógico em Moçambique. É a língua do ensino. É a língua do comercio. É a língua da burocracia. Quase toda a nossa literatura é escrita em português. A nossa história foi escrita em português. Os nossos debates sobre política são escritos e, quase sempre falados, em português. O único espaço que a língua portuguesa não ocupa por completo na nossa sociedade é o espaço das conversas privadas e a rádio.

A discussão acesa sobre o acordo ortográfico em Moçambique mostrou que nos espaços onde a língua portuguesa é rainha, toda a vida formal, a preocupação com a mesma é grande. Os moçambicanos gostam tanto da língua portuguesa que, ao contrário de mim, não querem abrir mão de consoantes mudas. É comum ouvir pessoas que são fluentes na mesma língua moçambicana a falarem em português uma com a outra. E todos os moçambicanos que eu já conheci fora de Moçambique ficam tão contentes como eu quando ouvem português.

Há muita gente em Moçambique que só sabe falar português de todas as línguas nacionais. Seja porque vem de famílias que nunca falaram nenhuma outra língua moçambicana, porque é de uma família que foi assimilada há muitas gerações atrás ou porque a vive longe de outras pessoas que falem a língua da família (por exemplo um Ndau em Maputo). Para esses moçambicanos o português é a língua nacional que os identifica.

O português é a língua oficial em Moçambique e quanto mais os anos passam mais essa posição se vai reforçar. A posição da língua portuguesa em Moçambique é sólida e não há nenhuma possibilidade de esta deixar de ser a língua mais importante do país. A língua portuguesa em Moçambique não precisa de ser defendida contra inimigos reais ou imaginários.

As línguas que estão sob real ataque em Moçambique são todas as outras, principalmente as línguas de comunidades mais pequenas. O ataque começou durante o tempo colonial quando as línguas moçambicanas foram reduzidas a dialetos, e continua até hoje. É possível viver em Moçambique e participar da vida formal do país sem saber nenhuma outra língua que não o português. Aliás saber falar e escrever perfeitamente qualquer outra língua moçambicana, que não o português, não confere praticamente nenhuma vantagem na vida profissional em Moçambique. A maior parte dos moçambicanos nunca viu a sua língua materna escrita. A maior parte dos moçambicanos nem sequer sabe que a sua língua materna pode ser escrita. No entanto eu acredito que a maior parte dos moçambicanos tem um vinculo tão forte com a sua língua materna como o que eu tenho com a minha. A diferença é que toda a sociedade moçambicana valoriza a minha, enquanto que quase ninguém valoriza as outras. Nesta realidade onde 99% das conversas (na vida formal) são em português ou sobre o português é vital que a gente deixe que as conversas sobre as outras línguas existam sem sentirmos necessidade de defender a língua portuguesa – aliás a conversa quase que de certeza absoluta já vai estar a ser em português.

A língua é uma das influencias mais duradoiras do colonialismo. É também uma das injustiças sociais que vai ser quase impossível reparar. A realidade é que, tirando raras excepções, as línguas africanas perderam valor como consequência do colonialismo. E não há nenhuma maneira prática de lhes devolver a importância que as sociedades de onde elas são merecem. Promover e valorizar as línguas africanas é uma questão de devolver a dignidade às comunidades locais. É dizer “a tua língua materna é importante e especial e merece ser escrita e falada”. Validar esta relação emocional que as pessoas sentem em relação à sua língua materna é importante.

Para além deste aspecto emocional temos também que ter em conta as dinâmicas de poder à volta da língua. Quem não domina o português em Moçambique vai ter dificuldade em progredir em termos de carreira. Isto significa que a nossa sociedade naturalmente discrimina contra pessoas que não têm o português como língua de comunicação em casa. Isto é, discrimina contra os pobres e os camponeses. A língua portuguesa serve como um instrumento de exclusão dos menos privilegiados da nossa sociedade. Isto é resultado da nossa história e não há muito que se possa fazer para mudar esta realidade. No entanto uma coisa que é fácil fazer é não cair na tentação de atacar o orgulho pelas outras línguas moçambicanas ou na tentação de tornar todas as conversas sobre a língua portuguesa.

Deixemos que algumas conversas sejam sobre as outras línguas nacionais. Deixemos que cada um celebre o seu amor pela sua língua materna.

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