Em defesa do tribalismo

No dia 11 de Fevereiro de 1990 o Nelson Mandela sai da prisão, depois de 27 anos, e começa as negociações para a paz com o governo do Apartheid. A postura que ele decidiu tomar na altura foi de reconciliação com os brancos sul-africanos. As razões que o levaram a escolher este caminho não são tão evidentes quanto parecem. Os primeiros discursos de Mandela, depois de sair da prisão, não têm o mesmo tom conciliatório a que nos habituámos mais tarde. Mas o facto é que, ao fim de um ano de liberdade, ele tinha decidido que o melhor caminho para a África do Sul e para o povo sul-africano era a construção da ideia da “Nação Arco-Íris”. Foi por ele estar tão certo de que esse era o melhor caminho que ele conseguiu, a custo, convencer os outros membros do ANC e depois chegar a acordo com o Partido Nacional, que estava no poder.

As primeiras eleições livres, em 1994, marcam o fim definitivo do Apartheid na África do Sul e o país embarca na difícil tarefa de manter os níveis de produção e, ao mesmo tempo, elevar a condição de milhões de sul-africanos negros. Para lidar com a desconfiança entre os grupos raciais foi criada a Comissão de Verdade e Reconciliação – durante anos várias pessoas passaram em frente à televisão a confessar e justificar os crimes que tinham cometido. Em 1999, quando acaba o mandato do presidente Mandela, parecia que o sonho da Nação Arco-Íris ia funcionar. A África do Sul estava ainda numa onde de optimismo contagiante que dava gosto ver.

Infelizmente este último ano (na verdade os últimos 10 anos) tem estado a mostrar uma realidade um bocado diferente. As manifestações que começaram na Universidade da Cidade do Cabo para a remoção de uma estátua de um colono britânico transformaram-se num movimento nacional contra os resquícios do colonialismo que persiste na África do Sul. Este movimento está a expor as diferenças entre os grupos raciais no país e a lembrar feridas mal saradas. Há várias pessoas a questionarem o projecto da “Nação Arco-Íris”, não só a execução mas também a concepção, a ideia de que foi pedido às vitimas para perdoarem ao agressor sem primeiro ter sido pedido ao agressor que admitisse o crime. A verdade é que está a tornar-se inegável que a estratégia que o Mandela escolheu não é suficiente para garantir reconciliação entre os grupos raciais na África do Sul. Vai ser preciso ainda muito trabalho por parte do governo sul-africano.

Em Moçambique nós também escolhemos o caminho da reconciliação “forçada” não uma, mas duas vezes desde a independência. Primeiro durante o processo de independência e da construção do “novo homem”. A segunda vez foi depois dos acordos de paz, em 1992, quando decidimos que agora éramos todos irmãos. As vantagens desta politica são compreendidas e, penso eu, aceites pela maioria dos moçambicanos. Faz parte da nossa auto imagem que em Moçambique nós não temos esses problemas de racismo, como na África do Sul, nem de tribalismo, como na Nigéria. Não é bem que está tudo bem, mas é que nós somos pacíficos e nos entendemos no final de tudo.

Há dois problemas com esta nossa politica de fingir que as zangas passadas acabam magicamente no acto da assinatura de acordos de paz. O primeiro é que não deixamos espaço, a nível oficial, para as pessoas verbalizarem os sentimentos negativos que ainda têm. Sentimentos negativos têm o hábito de vir ao de cima em situações de conflito. Assim, normalmente somos todos moçambicanos, mas numa briga já “os Ndaus são confusos” e “os MaShanganas são ladrões”.

O segundo problema é que a pacificação é feita a partir da construção da identidade comum e depende desta. Isto significa que andamos há 40 anos a celebrar o que nos une – como a língua portuguesa e a suposta natureza pacífica da “boa gente” de Moçambique – e a ignorar (e quase a demonizar) o que nos distingue uns dos outros – toda e qualquer manifestação do famoso tribalismo. Esquecemo-nos que a identidade pessoal de cada um está intimamente ligada à sua língua materna e aos usos e costumes da sua gente. Ao recusarmo-nos, como país, a celebrar as diferentes culturas e pontos de vista de cada tribo moçambicana estamos a atacar a identidade dos moçambicanos. Depois ficamos surpreendidos quando as pessoas não confiam umas nas outras de acordo com linhas tribais e culturais.

Nós, como nação, herdamos uma realidade complicada. Temos partes de nações (tribos) dentro da nossa nação (Moçambique). As nações (tribos) do norte têm, culturalmente, muito pouco em comum com as nações (tribos) do sul. Na altura da independência era preciso convencer pessoas que nunca tinham trabalhado juntas, que nunca tinham se considerado irmãs a desenvolver uma identidade comum, a se comprometerem com o projeto de construção nacional. E foi assim que declarámos guerra ao tribalismo, às diferenças e abraçamos a identidade comum vinculada pela língua portuguesa e pelo plano socialista.

Eu entendo as razões que levaram à guerra ao tribalismo. Entendo a necessidade politica da construção da identidade nacional. Entendo a necessidade do comprometimento com a ideia da união entre as pessoas do sul e do norte do país. Mais ainda, eu acho que estas razões são tão pertinentes hoje como eram em 1975 quando 97% da população nem sequer tinha uma língua em comum. Quando uma parte considerável da população acha que o caminho para a paz passa pela divisão do país em 2 é óbvio que há, ainda, uma necessidade urgente de se criar uma identidade nacional unificada. Eu só já não concordo que a maneira de criarmos esta identidade nacional unificada passa pela guerra ao tribalismo.

Está na hora de admitir que a guerra ao tribalismo falhou. Andamos há 40 anos a tentar convencer as pessoas a porem a identidade nacional acima da identidade tribal e nada. As pessoas continuam a ser Makhuwa e Shona antes de serem moçambicanas. Esta é a realidade.

E se nós mudássemos de estratégia? Em vez de continuarmos a demonizar as diferenças passássemos a celebrá-las, será que isso não iria levar a melhor entendimento entre as pessoas?

Eu acho que nós temos de mudar a nossa definição de identidade nacional para uma definição mais abrangente. Uma definição que admite e admira a realidade multicultural do nosso país e dos moçambicanos. Da mesma maneira que admitimos variedade religiosa temos de admitir variedade tribal. Um moçambicano cristão sabe explicar o islamismo da mesma maneira que um moçambicano muçulmano sabe explicar o cristianismo. Faz parte da nossa cultura aprender sobre todas as religiões e aceitar todas as religiões. No entanto, eu não faço a mínima ideia sobre como são os casamentos nas culturas do norte. E sei de pessoas do norte que elas não vêem com bons olhos o lobolo. Isto é, nós somos mais tolerantes e compreensivos no que toca à religião do que nas culturas “tribais”. Depois espantamo-nos com a situação em que vivemos, onde muita gente acha que as diferenças culturais são inultrapassáveis. A confiança mútua passa, necessariamente, pelo entendimento e pelo respeito. A guerra ao tribalismo diminui o entendimento e o respeito pelas diferenças culturais o que torna a confiança muito difícil.

A identidade cultural tem uma importância visceral para as pessoas. É como a terra em que nascemos. Quando alguém nos tenta roubar a terra nós reagimos com muita violência, estamos dispostos a morrer para defender o nosso direito à terra. É o mesmo com a identidade cultural. Se nós começarmos a reafirmar e a validar a identidade cultural dos moçambicanos e se permitirmos que essa identidade faça parte da identidade moçambicana vamos contribuir muito mais para a paz do que se continuarmos a tentar abafar as diversas culturas do país.

Temos de parar de tentar tapar o sol com a peneira. Temos de admitir que o tribalismo existe, que as diferenças culturais existem e que vão continuar a existir no futuro previsível. A única coisa que podemos fazer é transformar o tribalismo numa coisa positiva. Vamos fazer do tribalismo uma característica que nos une em vez de uma característica que nos divide. Vamos criar um Moçambique onde o Makonde comum consegue explicar o que é o xiguiane e o Bitonga comum consegue explicar o que é o mapiko. Vamos criar um Moçambique onde o Makonde sente orgulho no xiguiane e o Bitonga no mapiko, onde ambos sentem as duas tradições como “suas” na sua identidade moçambicana; mas onde nenhum deles sente que a identidade moçambicana ameaça a sua identidade tribal.

Nós criamos uma identidade moçambicana muito frágil. Uma identidade que se sente ameaçada quando se fala de qualquer diferença tribal. Criámos uma identidade moçambicana que não dá espaço às identidades tribais. Por isso basta uma das identidades tribais mostrar a cara para a identidade moçambicana se sentir ameaçada. Isto não é saudável para o país e não é saudável para nós, os moçambicanos.

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