Será que a religião tem alguma influencia no nosso sentido moral? Uma breve análise do estudo que vai dar que falar.

No outro dia eu falei de um estudo sobre a religião e o altruísmo em crianças que vai dar que falar. Hoje tive tempo de ler o estudo com um bocado de calma. Acho que vale a pena explicar as perguntas, os métodos, os resultados e as conclusões dos autores do estudo.

Porque é que nós damos sem esperança de receber nada em troca? Ou, por outras palavras, de onde vem o  altruísmo?

Esta é uma questão que psicólogos, neurobiólogos, filósofos e teólogos andam a investigar à muito tempo. As pessoas religiosas, independentemente da sua religião, tendem a acreditar que o seu sentido moral e o seu altruísmo vêm dos ensinamentos religiosos. Este senso-comum de que a religião tem um efeito positivo nas atitudes das pessoas, levando-as a ser mais caridosas, mais compreensivas, com um maior sentido de justiça, com mais empatia é regularmente testado por investigadores de várias áreas. Este último estudo foi feito em crianças de vários países do mundo e foca-se em algumas perguntas.

Quando comparamos crianças de famílias religiosas com crianças de famílias não religiosas:

  • Qual dos grupos é mais altruísta?
  • Qual dos grupos julga com mais severidade acções de outros?
  • Qual dos grupos sugere punições mais severas?

Quando comparamos as percepções dos pais em relação aos seus filhos:

  • Qual dos grupos acha que os seus filhos têm um maior senso de justiça?
  • Qual dos grupos acha que os seus filhos mostram maior empatia?

O estudo foi feito em 6 países (EUA, Canada, África do Sul, Turquia, Jordânia e China) com 1170 crianças entre os 5 e os 12 anos. O objectivo de fazer em tantos sítios diferentes é para ter a certeza que qualquer tendência que o estude revele não é uma particularidade de um só país ou cultura. Por outro lado os investigadores usaram alguns critérios na seleção das crianças que faz com que os resultados sejam comparáveis de região para região.  Por exemplo, todas as crianças vivem em cidades grandes; existe a possibilidade de que pessoas em cidades grandes sejam mais ou menos altruístas que pessoas em zonas rurais, esta possibilidade pode introduzir um erro na interpretação dos resultados, ao escolher trabalhar apenas com crianças de cidades grandes os investigadores estão a evitar este possível erro. Outros dois critérios de controle foram que todas as crianças frequentavam escolas onde não há grande variedade socioeconómica e cultural, e todas as famílias tinham nível de escolaridade comparável.

Para responder às duas últimas perguntas sobre a percepção que os pais têm sobre os seus filhos os investigadores usaram questionários que os pais preencheram. Os dois questionários usados são questionários standard neste tipo de estudo que foram validados previamente. Isto é, na área de investigação social e de personalidade e na área de neurociência estes questionários são aceites como sendo uma maneira válida de analisar as opiniões dos participantes do estudo.

Os resultados destes inquéritos mostram que pais religiosos acham que os seus filhos têm um maior sentido de justiça e que mostram mais empatia do que os pais não religiosos.

Para testar o quão altruístas são as crianças os investigadores usaram um jogo, o jogo do ditador. O jogo é simples, consiste em ver até que ponto as crianças estavam dispostas a partilhar autocolantes com um beneficiário ambíguo numa situação em que ninguém está a controlar se elas partilham ou não; isto é numa situação de pressão mínima para partilhar quanto é que as crianças partilham?

As crianças vão uma por uma para uma sala de entrevista com um investigador. O investigador dá 30 autocolantes a cada e disse-lhes para escolherem os 10 favoritos. A seguir o investigador diz que não ia ter tempo de jogar com todas as crianças da escola, logo algumas não iam ter nenhum autocolante. O investigador dá um envelope à criança e diz-lhe se quiseres deixa alguns autocolantes no envelope para nós distribuirmos pelas crianças que não vão jogar. Nessa altura o investigador ou sai da sala ou vira as costas para que a criança decida sozinha e sem pressão se quer dar algum autocolante e quantos quer dar.

As crianças mais velhas deram mais autocolantes que as crianças mais novas, isto é normal e está bem estudado. Os comportamentos sociais são aprendidos ao longo da infância e é normal que crianças pequenas tenham menos tendência a partilhar. Por outro lado, as crianças de famílias religiosas deram em média menos autocolantes que as crianças de famílias não religiosas. As crianças de famílias religiosas foram divididas em dois grupos, famílias cristãs e famílias muçulmanas. Não houve diferença entre estes dois grupos.

Para testar quais dos grupos julga com mais severidade e sugere punições mais severas os investigadores usaram filmes de crianças a empurrarem outras crianças sem querer ou de propósito e depois pediam que os participantes que escolhessem de uma lista o nível de maldade da criança que empurra e o tipo de castigo que eles acham justo. As crianças de famílias religiosas escolheram níveis de maldade maior e castigos mais severos que as crianças de famílias não religiosas.

Neste tipo de estudos o que conta é os testes estatísticos que foram feitos. Há dois tipos de testes estatísticos que devem ser analisados. O primeiro são testes que medem o quão significantes são os resultados. Um resultado é significante quando seria improvável que acontecesse por acaso, por outras palavras o resultado é real. Todos os resultados apresentados neste estudo são reais, isto é a diferença entre os grupos não é devido a um acaso.

Mas será que isso significa que esta diferença é importante? Não necessariamente. Uma diferença entre dois grupos pode ser real mas não ser importante. Por exemplo, imaginemos que fazemos teste de inteligência a 1000 pessoas, metade mulheres e metade homens. As mulheres têm um resultado médio de 100 e os homens 98. Se calcularmos a significância destes resultados vamos ver que o resultado é real. Mas em testes de inteligência não há diferença entre 98 e 100, isto é os dois grupos são igualmente inteligentes. Logo a diferença é estatisticamente significante mas não mostra nenhuma diferença entre a inteligência de homens e mulheres.

Para determinar se as diferenças são importantes é preciso fazer o segundo tipo de testes estatísticos, testes que medem o tamanho do efeito. Na minha opinião, os resultados destes testes mostram que as diferenças que os investigadores encontraram têm um efeito pequeno a moderado. Isto é, as diferenças são reais mas na prática têm pouca ou moderada importância.

É preciso dizer que o teste que deu os resultados mais robustos foi o teste do ditador, talvez por isso o título é sobre o altruísmo e não sobre as outras perguntas que o estudo investigou.

Será que os resultados deste estudo mostram que a religião tem um efeito negativo no senso moral das crianças? Eu acho que não. O que o estudo indica, sem sombra de dúvida, é que a religião não é necessária para o desenvolvimento do altruísmo e empatia nas crianças. A ideia, um tanto comum, de que pessoas não religiosas são menos morais que as pessoas religiosas foi, neste estudo, mais uma vez deitada por terra.

http://www.cell.com/current-biology/abstract/S0960-9822(15)01167-7

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